Sob um céu a arder

No Meu Peito Não Cabem Pássaros
Autor: Nuno Camarneiro
Editora: D. Quixote
N.º de páginas: 190
ISBN: 978- 972-20-4625-1
Ano de publicação: 2011

Em 1910, dois cometas lançaram o pânico à escala global. Antes ainda do previsto Halley (Abril/Maio), as pessoas espantaram-se com a cauda brilhante do inesperado Grande Cometa Diurno de Janeiro. Para os mais crédulos, a visão do céu a arder representava o cumprimento de profecias sobre o fim do mundo. Houve quem se matasse, quem enlouquecesse, quem exorcizasse o medo com prantos e rezas. No Meu Peito Não Cabem Pássaros, o arriscado primeiro romance de Nuno Camarneiro (n. 1977), um engenheiro físico de formação que já trabalhou no CERN, é a história de três homens imunes ao dito pânico que assolou o mundo.
Embora o autor seja omisso, não é difícil identificar os protagonistas das três narrativas paralelas. O Jorge que vive a infância rodeado de livros e das lendas dos antepassados (heróis de batalhas míticas), inventando zoologias fantásticas numa Buenos Aires encriptada em anagramas, é Jorge Luis Borges. O Fernando introvertido, com «uma cabeça de inventar filosofias», rapazinho que regressa de navio a um país «diminutivo e manso», só pode ser Pessoa. E Karl, o desamparado imigrante que lava janelas num arranha-céus de Nova Iorque, a oitenta metros de altura, faz lembrar o protagonista do primeiro romance (incompleto) de Kafka: Amerika.
Cada um à sua maneira, estes são homens aprisionados no labirinto da solidão. Jorge «cresce de dentro para fora», usando a imaginação como escudo contra a violência do mundo. Ele tanto projecta as suas memórias nos objectos quotidianos como inventa coisas que não aconteceram mas conseguem forçar a realidade («Um homem a escrever pode virar o mundo para onde quer»). Já Fernando nasceu para ser um homem «cheio de palavras novas a quererem ser ditas». Mesmo quando se fecha no quarto, o seu espírito «sai à rua como se fosse à pesca, deita as redes finas pelas ruas da cidade e apanha o que por lá passa». O mundo é para ser visto e entendido, não inventado – explica-lhe um professor. Em permanente «desacerto com a vida», ele aplica-se a refutar esta máxima. Quanto a Karl, cobaia que fica com um braço a tremer por excesso de electricidade, é despedido, afunda-se na bebida e na miséria, dorme em bancos de jardim, vende bíblias, até se redimir pelo amor num bordel onde o deixam ser barman.
Durante as primeiras cem páginas, o narrador cruza muito bem estes percursos só aparentemente díspares (há ecos, simetrias). Camarneiro começou pela micronarrativa e isso nota-se, sobretudo na forma como burila quase até à perfeição muitos dos seus curtíssimos capítulos. Não faltam excelentes passagens – a descrição da «lógica concêntrica» dos pátios escolares, por exemplo – e belas frases: «O verdadeiro bilhete de um suicida é a sua vida como ele a viveu». Infelizmente, na segunda metade do livro, Camarneiro parece hipnotizado pela própria linguagem, deixando-se levar por um lirismo que se torna omnipresente e cansativo, de tanto se encostar à grandiloquência. Resultado: o romance desfoca-se, dissipa-se, fica aquém do que chega a prometer. Ainda assim, uma boa estreia.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

One Response to “Sob um céu a arder”

  1. csd on Julho 16th, 2011 18:53

    Já está na lista de compras. Obrigada pela partilha José Mário.

    Um abraço.

    csd

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges