Teatro caleidoscópico

O Terceiro Reich
Autor: Roberto Bolaño
Título original: El Tercer Reich
Tradução: Cristina Rodriguez e Artur Guerra
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 346
ISBN: 9789725648506
Ano de publicação: 2010

Estavam os leitores portugueses de Roberto Bolaño ainda às voltas com 2666, magnum opus que juntou o êxito de vendas à aclamação da crítica, quando foi anunciada a publicação pela Quetzal, quase em simultâneo com a primeira edição espanhola, de um outro livro póstumo do escritor chileno. Escrito à máquina em 1989, O Terceiro Reich é na prática o primeiro romance de Bolaño, que chegou a corrigi-lo à mão mas nunca manifestou intenções de o publicar. O risco de um flop pós-endeusamento, ainda por cima com laivos de oportunismo comercial, não podia ser maior. Ao fim de poucas páginas, porém, as dúvidas dissipam-se: este é um grande livro, uma ficção inquietante e bolañiana até aos ossos, não só no estilo como em certas obsessões temáticas (o nazismo e a II Grande Guerra, a percepção de um mal difuso que contamina tudo, a violência, o sexo, os sonhos, a loucura). Na página 219, chega mesmo a aparecer uma avioneta que desenha letras no céu, antecipando a «poesia aérea» feita aos comandos de um caça Messerschmitt pelo protagonista de Estrela Distante (1996).
Escrito em forma de diário, O Terceiro Reich é narrado por Udo Berger, campeão de wargames que aproveita umas férias na Costa Brava para escrever um artigo em que testa variantes de um complexo jogo de estratégia. Ele e a namorada encontram um outro casal de alemães e entregam-se à rotina do ócio: praia, discotecas sórdidas, bebedeiras, etc. À sua volta, personagens dúbias com nomes dúbios (o Cordeiro, o Lobo) ou figuras enigmáticas (o Queimado; Frau Else e o seu marido doente, donos do hotel Del Mar). Os dias passam e quase nada acontece, a não ser um vago desconforto («sinto algo intangível, estranho, a dar voltas em redor de mim, ameaçador»), uma sucessão de medos sem causa aparente, perigos apenas pressentidos e uma tragédia que não põe fim a essas tensões acumuladas, antes as magnifica. Desligado de uma «Europa amnésica, sem épica e sem heroísmo», Udo torna-se um «sonâmbulo», um fantasma, um homem em processo de autodestruição, para quem a realidade é menos real do que o tabuleiro onde a História e as guerras podem ter outros desfechos, «cenário onde se dão milhares de princípios e fins», maqueta da vida verdadeira, «teatro caleidoscópico» em que todos são «sombras que jogam com sombras».
Embora inferior às suas duas obras-primas (Os Detectives Selvagens e 2666), O Terceiro Reich faz todo o sentido no corpus da obra de Bolaño. Ainda bem que foi resgatado da gaveta onde o chileno, talvez inseguro quanto ao seu valor, um dia o fechou.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no número 90 da revista Ler]



Comentários

One Response to “Teatro caleidoscópico”

  1. Carriço on Maio 21st, 2010 17:16

    Se Bolaño – como coloca em hipótese – estava inseguro do valor de O Terceiro Reich, isso diz bem da exigência do escritor. Não é abrangente como 2666, mas também se consegue tirar muito da sua leitura.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges