Teatro de poeira

ondina

A Maldição de Ondina
Autor: António Cabrita
Editora: Abysmo
N.º de páginas: 233
ISBN: 978-989-98019-5-0
Ano de publicação: 2013

Os golfinhos são mamíferos que desconhecem o sono profundo. Para sobreviverem, um dos lóbulos cerebrais tem de estar sempre alerta, assegurando a imprescindível vinda à superfície de cinco em cinco minutos, para respirar. Esta é a «maldição de Ondina» a que se refere o título do magnífico primeiro romance de António Cabrita. Metáfora, também, de um país: Moçambique. «Não conseguimos dormir completamente, e por isso não conseguimos esquecer… estamos em eterna vigília sobre o nosso passado (…) E sem conseguirmos resgatar a capacidade de esquecer, não conseguimos superar o ressentimento e atingir o perdão».
Para lá da bem urdida trama, de vagos contornos policiais, o romance fala-nos em primeiro lugar da experiência do autor, que trocou Lisboa por Maputo há quase uma década. «Quem aterra em África dá de repente conta de uma particular expansão do instante. Uma intangibilidade faz pairar o tempo sobre o corpo, uma hora ramifica-se em duas, somos de novo a criança que entrevê o paraíso na porta giratória donde não se entra nem se sai. Depois este efeito escapa-se-nos, a almofada do tempo fica crivada de alfinetes, e, como em toda a parte, a ansiedade mostra a sua juba.» De facto, a ansiedade é um animal selvagem, cuja sombra gera as mais diversas formas de violência e injustiça social, encapsuladas por Cabrita em pequenas histórias exemplares, marginais no contexto do romance, mas reveladoras de um estado de coisas: a desesperante burocracia; os negócios sujos; as urnas com votos na oposição deitadas ao mar («a democracia não foi feita para o africano», diz um sargento); o caso do curso para formar bibliotecários que aceita dois analfabetos como alunos; etc.
No centro da narrativa está César, um escritor português paralisado por impasses literários (anda às voltas com a própria escrita, insatisfeito, ao ponto de apagar seis meses de trabalho do computador) e afectivos (em plena crise matrimonial com Beatriz, reaproxima-se de Argentina, antiga namorada). Ele é um «adolescente perpétuo», desorientado e volúvel, preso «num hiato, entre o sucesso e o descalabro». Como alguém lhe explica: «Estás ‘entre’ – na vida, no amor, nos países.» Em torno de César, tudo se fragmenta, tudo se dissolve, tudo se desfaz. Com um pé na realidade e outro na ficção, ele gere o próprio desequilíbrio, convoca figuras do seu património cultural, avança num «jogo de biombos», estatela-se ao comprido mais de uma vez. No peito, tem «uma cratera lunar»; e sente-se no palco de um «teatro de poeira».
O contraponto de César é Raul, o amigo polícia, cujas histórias foi inconscientemente vampirizando nos romances que lhe deram fama e (cada vez menos) sustento. Entre os dois cria-se o vínculo que sustenta a história principal, de desfecho trágico. Mas o que torna este livro precioso não é o enredo, nem sequer a estrutura narrativa de muitas pontas aparentemente soltas, por fim atadas de modo subtil. É a linguagem. Cabrita torce as frases, cinzela a sintaxe, arredonda a prosa, faz música. Exemplo: «Quadriculado convulso, uma cidade que desaprendeu a mansidão, que se desdobra aos baldões e se acama em escombros.» À escrita exuberante junta-se um tremendo rigor na construção das cenas, que começam sempre num pormenor, numa palavra solta, numa esquina, numa esguelha, e depois se desdobram com agilidade felina, como quem escava no real o espaço da sua própria representação.
Para o protagonista, a literatura é uma «obsessão danosa» mas inelutável: «Descobrir como imprimir ritmo a uma frase é um transe de que não se recupera.» Em César, criatura, haverá algo de António Cabrita, criador. Pelo menos esta obsessão, este transe maravilhoso, são decerto iguais num e noutro.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges