Tratado da violência

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A Máquina do Mundo
Autor: Paulo José Miranda
Editora: Abysmo
N.º de páginas: 198
ISBN: 978-989-98019-9-8
Ano de publicação: 2014

O novo romance de Paulo José Miranda começa por provocar no leitor um sentimento de desconcerto. A quem pertence esta voz que nos fala em A Máquina do Mundo, louvando a violência como «o modo mais eficaz de se apagar o vazio dentro de nós» e a tortura mais brutal como «o expoente máximo» dessa mesma incensada violência? Trata-se de um assassino profissional, um agente turco a quem chamam «Camaleão» por ser mestre nos disfarces, uma espécie de 007 do Bósforo, excelente «a desemperrar» situações à força, especialista no uso de explosivos C-4, e que gosta de concluir os seus serviços com um tiro no coração das vítimas. Para ele, matar não traz angústias nem dilemas existenciais, é apenas uma forma como outra qualquer de ganhar a vida. Ao contrário da maioria dos seus companheiros de profissão, porém, Türker não se remete ao silêncio: «A minha violência começa sempre com palavras, com um discurso – nem que seja um simples ‘vai’, como se diz a um cão.» E é por trazer consigo um discurso, um pensamento sobre as acções cometidas, que a sua narrativa se torna interessante.
Logo desde os primeiros capítulos, quase sempre curtos, a escrita oscila entre a acção pura e dura, muito ao estilo dos thrillers de espionagem, e uma espécie de inusitado impulso teórico, como se Türker, nos intervalos da sua complicada missão, resolvesse esboçar um tratado filosófico sobre os fundamentos da violência, em que constaria, por exemplo, esta passagem: «O medo fica para além da tristeza. A tristeza é um medo pequenino, um medo de crianças. (…) O ser humano só é triste antes de ser torturado. A tortura acaba com a tristeza. A tortura é o exercício máximo do poder. Através da tortura mudamos o destino, mudamos a natureza das coisas.» Que um assassino profissional diga coisas destas, é estranho, mas aceita-se. Que em momento algum o livro se distancie desta voz, eis o que perturba, eis o que provoca o tal desconcerto do leitor, provavelmente desejado por Paulo José Miranda.
A ambiguidade estende-se à própria natureza do que nos vai sendo revelado. Ao fim de umas páginas, torna-se evidente que o romance está imerso numa realidade virtual, um jogo em que os jogadores têm objectivos a cumprir, ganhando e perdendo vidas pelo caminho (até um máximo de cinco), como em qualquer videojogo. Mas estaremos efectivamente num sofisticado simulacro lúdico, «literalmente oposto ao mundo da vida»? Umas vezes parece que sim. Outras vezes, instala-se a dúvida. O certo é que o narrador, acompanhado por uma irlandesa lindíssima e de eficiência sem mácula, treinada pelo IRA, vai cumprindo a sua missão – do Chipre do Norte a Hong Kong, da Turquia à Tailândia, de caríssimos restaurantes panorâmicos à «maior espelunca jamais vista no Ocidente», explorada por um «búlgaro maluco» – insistindo numa história de amor que nunca chegará a bom porto.
Paulo José Miranda é surpreendentemente expedito na articulação da sua intrincada trama, que aborda a perseguição aos praticantes da seita Falun Gong, na China (aprisionados em campos de concentração que funcionariam como «banco vivo de órgãos»), cuja iminente denúncia é o ponto de partida para uma cascata de acontecimentos que ameaça pôr em causa o equilíbrio geoestratégico mundial. Há qualquer coisa de pynchoniano neste tresloucado vórtice conspirativo, em que o planeta é visto como uma mega-empresa, a Existe Lda., «na qual apenas alguns participam nos lucros e os outros fazem o que lhes mandam, ainda que julguem que não é assim, que não estão a ser mandados, que têm livre-arbítrio social e político, ao invés de estarem a ser manipulados por quem realmente manda, por quem realmente decide, por quem tem os dados nas mãos». O problema é que falta a Miranda a desmesura e o génio de Pynchon, ou talvez apenas a capacidade de levar a loucura das suas histórias às últimas consequências. Aqui e ali, o narrador perde-se em atalhos que pouco ou nada acrescentam (sobre a História turca ou os tumultos provocados pelos traficantes de droga em São Paulo) e com isso o livro perde tracção, energia, capacidade de choque.

Avaliação: 6,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges