Tributos e caminhadas

O Caminhante Solitário
Autor: W. G. Sebald
Título original: Logis in einem Landhaus: über Gottfried Keller, Johann Peter Hebel, Robert Walser und andere
Tradução: Telma Costa
Editora: Teorema
N.º de páginas: 159
ISBN: 978-972-695-886-4
Ano de publicação: 2009
Nos últimos cinco anos, a Teorema disponibilizou aos leitores portugueses, pouco a pouco, o essencial da obra curta — mas simplesmente extraordinária — de W. G. Sebald (1944-2001), em minha opinião um dos melhores autores surgidos nos últimos trinta anos. A dádiva da Teorema começou em 2004, três anos após a morte de Sebald (num estúpido acidente de viação), com a sua obra-prima: Austerlitz, um romance avassalador. Seguiram-se Os Estrangeiros (2005), o belíssimo Os Anéis de Saturno (2006), História Natural da Destruição (2006) e Vertigens. Impressões (2007). Concluída a publicação do núcleo duro da obra sebaldeana, tivemos ainda direito ao póstumo Campo Santo, que reúne artigos e textos dispersos. Tal como esse volume, publicado em 2008, O Caminhante Solitário (reunião de seis breves ensaios sobre os escritores Peter Hebel, Jean-Jacques Rousseau, Eduard Mörike, Gottfried Keller, Robert Walser e o pintor Jan Peter Tripp) fica um pouco aquém da restante prosa de Sebald, embora as suas obsessões temáticas (a vida de certos artistas e o modo como se inscrevem no mundo, ou na História; o poder da paisagem; os meandros da criação literária) e o seu estilo (de frases longas, muito bem articuladas, ao serviço de uma inteligência tacteante) sejam os mesmos de sempre.
Neste «tributo aos colegas que me precederam», Sebald coloca-se no lugar do leitor; isto é, daquele que se espanta e maravilha com a escrita alheia. Cabe-nos, a nós, leitores em segundo grau, seguir o seu raciocínio sempre arguto, as suas indagações eruditas. E compreender, por exemplo, a forma como os finais de frase, em Hebel, se abriam «ao vazio». Ou as tribulações de Rousseau, que o perseguiram mesmo no recato da ilha de Saint-Pierre, a meio do lago Bienne. O texto mais conseguido é o que Sebald dedica a Walser, também ele um caminhante por natureza, uma espécie de parente literário (que até lhe evoca o seu avô Josef), ser furtivo que se dissipa na escrita para «vencer a gravidade»: «Walser quer sempre elevar-se acima da pesada vida terrena, quer desaparecer de mansinho, sem barulho, para paragens mais livres.»
Fica agora a faltar, de W. G. Sebald, a poesia.
Avaliação: 8/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
Comentários
4 Responses to “Tributos e caminhadas”
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E eu, que leio Sebald, não sendo porém um sebaldeano, acho este seu livro soberbo.
É muito bom, sim. Mas os outros são ainda melhores.
Sebald é realmente extraordinário.
[...] O Caminhante Solitário, de W. G. Sebald, Teorema [...]