Um ‘centauro’ no jardim da lógica

logicomix

Logicomix – Uma Busca Épica da Verdade
Autores: Apostolos Doxiadis, Christos Papadimitriou, Alecos Papadatos e Annie Di Donna
Título original: Logicomix – An Epic Search for Truth
Tradução: Nicolás F. Lori
Editora: Gradiva
N.º de páginas: 351
ISBN: 978-989-616-601-4
Ano de publicação: 2014

De tempos a tempos, há livros que se destacam da torrente editorial pela originalidade, pelo arrojo, pela capacidade de surpreender mesmo quem julgaria já ter visto tudo. Logicomix é um desses raros livros que nos trocam completamente as voltas. Na verdade, o projecto de contar um período áureo da história das ideias – a busca dos fundamentos da Matemática, entre as últimas décadas do século XIX e a II Guerra Mundial – sob a forma de uma novela gráfica, sem abdicar do mais absoluto rigor científico, pode parece abstruso de início, mas depressa agarra o leitor pelos colarinhos (seja ele iniciado nas temáticas ou completamente leigo), levando-o até ao fim desta notável aventura intelectual num estado de espanto e maravilhamento.
O mérito pertence por inteiro aos quatro autores do livro: Apostolos Doxiadis, matemático, romancista, e estudioso das relações da matemática com a narrativa, que criou o conceito e escreveu o texto; Christos Papadimitriou, investigador em Ciência Computacional, co-criador da história; Alecos Papadatos, ilustrador; e Annie Di Donna, responsável pelo trabalho cromático. No fundo, eles quiseram fazer o que «99,9% das novelas gráficas são»: uma «história» bem contada, com «heróis em busca de grandes objectivos». Heróis que neste caso descem do Olimpo erudito onde costumam pairar e exibem as suas descobertas ao comum dos mortais, numa linguagem que torna compreensíveis as ideias mais complexas e os combates em torno delas, sem nunca as simplificar em excesso. Da galeria fazem parte muitos nomes – Whitehead, Frege, Cantor, Hilbert, Wittgenstein, Gödel –, mas há um protagonista que se destaca: Bertrand Russell, um «centauro», metade matemático, metade filósofo. É ele que narra a «tragédia espiritual» da procura de um caminho sólido para a Verdade, com base numa certeza absoluta (certeza que o teorema da incompletude, de Gödel, veio comprometer de vez). E fá-lo durante uma palestra numa universidade americana no dia em que o Reino Unido declara guerra à Alemanha, a 4 de Setembro de 1939, intervenção que serve de fio condutor à narrativa.
Particularmente conseguida é a forma como Russell vai cruzando, no seu discurso, o percurso pessoal com as questões teóricas que o atormentaram durante décadas. Tão depressa assistimos aos terrores e epifanias infantis na mansão dos avós, com quem foi viver depois de ficar órfão aos quatro anos, como ao desabrochar da sua inteligência, a partir da descoberta dos axiomas geométricos de Euclides. Se numa página assistimos a sofisticados duelos verbais nos salões de Paris ou Viena, noutra são-nos dados vislumbres, nem sempre lisonjeiros, da sua vida particular. O que se obtém é o retrato poliédrico de um homem consumido pelo gigantismo da missão intelectual a que se propôs e marcado por um sentimento de derrota, ignorando que o falhanço muitas vezes abre portas para vitórias futuras. O sonho de Leibniz («encontrar o método lógico perfeito de resolver todos os problemas, da Lógica à Vida Humana») estilhaçou-se mas das ruínas surgiram novas abordagens conceptuais, como as de Turing, que permitiram a invenção do computador e da informática, colocando instrumentos da razão ao alcance de todos.
Sem grande surpresa numa obra em que são referidos sistemas auto-referenciais, um dos temas de Logicomix é a criação de Logicomix. Ou seja, os quatro autores do livro também são personagens e mostram-nos o outro lado das pranchas belíssimas: as discussões sobre o rumo a dar à história, os impasses, as discordâncias, as dúvidas (Papadimitriou, por exemplo, torce o nariz à relação várias vezes sugerida entre Lógica e loucura). No final, vão todos assistir a um ensaio do último acto da Oresteia e não haveria melhor forma de fechar o arco narrativo. Porque a tragédia de Ésquilo, ao consagrar o triunfo da razão, estabelece uma «analogia perfeita» com a «busca épica da verdade» de Russell e companhia.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



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