Um certo Yunior

É Assim Que a Perdes
Autor: Junot Díaz
Título original: This is How You Lose Her
Tradução: José Miguel Silva
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 153
ISBN: 978-989-641-299-9
Ano de publicação: 2013

Junot Díaz apresentou-nos pela primeira vez a figura de Yunior no seu livro de estreia, escrito num inglês vibrátil, contaminado por palavras espanholas e pelo calão dos subúrbios de New Jersey. Drown (1996) forma um conjunto de contos interligados que alterna vinhetas sobre as dificuldades de integração dos imigrantes caribenhos nos EUA com episódios da infância miserável na República Dominicana (inesquecíveis, as duas histórias sobre um rapaz que usa uma máscara de couro, para esconder o rosto devorado por um porco). Yunior foi depois o narrador do segundo livro – o extraordinário romance A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao (Porto Editora, 2009), vencedor do Pulitzer de Ficção – e volta a ser a personagem principal de É Assim Que a Perdes, um volume de contos com uma estrutura semelhante à de Drown. Ou seja, cada texto funciona por si mesmo, mas também faz parte de um mosaico cronologicamente fluido dos vários momentos essenciais da vida de Yunior, que pode perfeitamente ser um alter ego de Díaz, tendo em conta as muitas coincidências biográficas (além da origem comum, ambos estudaram na Universidade de Rutgers, são escritores e dão aulas em Boston).
Em Invierno, um dos melhores contos do livro, Díaz descreve, com uma subtileza feita de silêncios, o desamparo daqueles que se vêem subitamente transplantados para outro país, diametralmente oposto ao que conheciam. Após anos a trabalhar nos Estados Unidos, onde arranjou uma amante, o pai de Yunior consegue finalmente mandar vir a família: mulher e dois filhos. Eles passam a viver num bairro ainda em construção, junto a um aterro de lixo, sempre fechados em casa por causa do frio. O pai é um estranho que impõe as suas regras. Quando percebe que o cabelo demasiado «africano» do filho mais novo não cede aos tratamentos de um barbeiro porto-riquenho, manda cortá-lo rente. Na belíssima cena final, em que a mãe desobedece ao jugo paterno e sai com os filhos durante uma tempestade de gelo, Yunior tira o gorro, «só para sentir os flocos de neve a caírem dispersamente na minha cabeça dura, rapada».
Díaz chega a ser genial neste tipo de detalhes, que resumem tudo numa frase ou numa expressão. Lemos «Grandes nuvens brancas paradas no céu, gente a lavar carros com mangueiras, música na rua» e não é preciso mais para imaginarmos um bairro latino. Depois de o amante sair, uma mulher vê que no lavatório «os pêlos da barba dele estremecem sobre gotas de água, agulhas de bússola». De regresso à ilha para visitar a família, uma dominicana pousa os presentes sobre os joelhos, «como se levasse ali os ossos de um santo». Quem a observa esta última imagem é Yunior, que viaja no mesmo avião, a tentar desesperadamente reconciliar-se com uma namorada. Ele avisa logo que «se isto fosse outro tipo de história», falaria de Santo Domingo, do mar com «aparência de prata rasgada» e da rua onde nasceu, ainda indecisa sobre «se quer ser um bairro-de-lata ou não». Nada disso acontece porque o «tipo de história» que Yunior nos pretende contar gira praticamente em torno de um único tema: a sua infidelidade compulsiva.
Uma atrás de outra, vamos conhecendo as muitas namoradas traídas e a forma como Yunior não consegue lidar com elas. Ao perdê-las, quase sempre por incompetência emocional (um misto de insensibilidade e desleixo), é ele que se perde, pondo em causa a imagem que faz de si mesmo: um tipo «fraco, cheio de falhas, mas basicamente bom». Quando uma das ex lhe envia, encadernados, os e-mails e fotos que provam as suas traições, dizendo que são «material para o teu próximo livro», ele espanta-se com a «vastidão» da sua «desonestidade» e vê-se finalmente como é: «um cobarde e um cagarolas do caralho». O «próximo livro» – pessoal, doloroso – talvez seja este que lemos. E nunca relatos sobre as ruínas da paixão amorosa foram tão honestos, tão brutais, tão no osso, tão na pele.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

Comments are closed.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges