Um coro de feridas

Gado do Senhor
Autora: Rosa Alice Branco
Editora: &Etc
N.º de páginas: 49
ISBN: 978-989-8150-31-8
Ano de publicação: 2011

Na epígrafe deste livro, Rosa Alice Branco evoca o homem como «doença mortal do animal» e os poemas começam por criar a expectativa de uma denúncia, em voz alta, das nossas malfeitorias enquanto espécie dominante. As primeiras páginas falam-nos de vacas condenadas ao «churrasco de domingo», mas ainda assim trocando «mus» como «mantras de amor sob as estrelas»; mostram-nos aves em «previsível colisão com aviões», porque a guerra (em concreto, a do Iraque) nada sabe das rotas migratórias; ou um cão da infância que fingia não ser o dono do seu dono. Mais à frente, temos ainda a visão de aviários piores do que favelas («Nas favelas sempre se / tem alcunha e muita raiva. E manha para fugir ao medo»), o solilóquio de uma galinha à espera da faca em «dia de arraial», a clarividência dos caracóis que «vêem para dentro».
Esta aproximação à «candura dos animais», indefesos diante das mãos humanas, podia quedar-se por uma espécie de militantismo ecológico (entrevisto na evocação da «Terra» como «cadáver», ainda assim belo «entre as flores do campo que resta / e o fumo dos incêndios que te cinzam»). Mas a poeta logo demonstra que o verdadeiro tema é outro. É a própria ideia de morte, é a experiência da perda total, esse afinado «coro de feridas», esse vazio súbito que nos deixa num desamparo semelhante ao dos bichos e suscita uma revolta contra as ordens estabelecidas – em particular a religiosa, com os seus «altares do sacrifício» onde é suposto sermos, por nossa vez, uma forma de «gado», também ele submisso e temeroso.
Por muito que os cemitérios se tenham transformado em «repartições públicas», a que as famílias acorrem «sem os formulários preenchidos» e gastando «toda a tristeza que pouparam», há nestes poemas uma desarmante evocação das mais antigas formas de luto: «Sigo os números que conduzem a ti. / O rosário dos ossos desfia este amor / que não cabe nas mãos. A carne é fraca, / a madeira porosa e tudo o que respiro te consome. Fecho os olhos e os teus passos tocam de novo / o chão da casa.»
Atravessado de ponta a ponta por um subtexto bíblico, Gado do Senhor é um belo livro, agreste e corajoso, feito de parábolas, música magoada e uma ironia ácida, especialmente notória nos diálogos com o divino: «Se és deus, ressuscita os anjos. Eu cá em baixo / não espero peva a não ser um pouco de pudor da tua parte. / Mas continuas a exibir o sofrimento das larvas, / da tua mãe santíssima, dos teus pregos a escorrerem / sangue, um sangue que é puro desperdício. / Se ao menos fosses dador universal.»

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no n.º 105 da revista Ler]



Comentários

Comments are closed.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges