Um épico wagneriano no sertão


O Rastro do Jaguar
Autor: Murilo Carvalho
Editora: LeYa
N.º de páginas: 563
ISBN: 978-989-660-011-2 (capa dura) e 978-989-660-010-5 (capa mole)
Ano de publicação: 2009

Pela janela do seu quarto de hotel, em Congonhas do Campo, Minas Gerais, o narrador de O Rastro do Jaguar contempla os «escuros profetas talhados na pedra» por António Francisco Lisboa, o Aleijadinho, no largo fronteiro à Igreja de Bom Jesus de Matosinhos. Chove muito sobre a paisagem barroca, faltam poucas horas para a entrada no século XX e o tempo, a mais fugidia das matérias, começa a desatar os seus nós.
«O que me proponho a escrever não são minhas memórias, não é um romance; será, talvez, uma longa reportagem sobre a história de várias guerras, grandes e pequenas, que acompanhei ao longo desta vida de repórter. Mas principalmente sobre a viagem de um homem em busca de sua alma e de seu povo», afirma Pereira, o tal narrador de que apenas conheceremos o apelido, jornalista francês com família portuguesa.
Pierre de Saint’Hilaire é o nome do homem que parte à procura das suas origens, um guarani educado na Europa, músico de orquestra que tocou na estreia do Tannhäuser em Paris, aventureiro destemido que se transformará, ao regressar ao Brasil, numa espécie de profeta-guerreiro da sua tribo (o Jaguar do título), figura de que Pereira, a dada altura, procurará reencontrar o rasto.
Cruzando reflexões finisseculares de pendor melancólico com permanentes flashbacks e a transcrição de cartas antigas, a narrativa organiza-se como «a visão de um caleidoscópio, formada por dezenas de pedaços desconexos», uma torrente de recordações que criam uma imagem, não apenas do percurso de cada uma das personagens principais, como da própria História do Brasil no século XIX, muito em particular da fase final do império.
As «várias guerras» ocupam parte substancial da acção do livro. Primeiro, acompanhamos Pierre e Pereira na travessia do sertão brasileiro, onde testemunham o triste fim dos combativos índios aimorés (ou botocudos, como lhes chamavam os portugueses), vítimas da estratégia colonial musculada e da recusa em abdicar do nomadismo. Depois, Pierre reencontra as suas raízes guaranis e mergulha nos respectivos mitos criadores, um dos quais assente na utópica procura de uma Terra Sem Males. Por fim, fechando o arco, assistimos ao apocalipse dos guaranis paraguaios, soldados de um exército valoroso que a obstinação do presidente Solano López, isolado diante de uma tríplice aliança (de argentinos, brasileiros e uruguaios), conduziu ao mais absoluto descalabro.
Enquanto deambula pelos campos de batalha, ou pelas veredas da selva impenetrável, a prosa de Murilo Carvalho revela-se muitíssimo eficaz, directa e precisa. Infelizmente, o mesmo não se pode dizer do romance como um todo. Se os movimentos colectivos funcionam bem, a articulação dos percursos individuais nem sempre é convincente. As cenas europeias, por exemplo, soam quase todas a falso. E na história de amor com Francisca, cansativamente nostálgica, abundam os lugares-comuns e as imagens poéticas de gosto duvidoso. Falta, sobretudo, um maior equilíbrio entre os vários planos da narrativa e os respectivos centros de gravidade.
Dito isto, O Rastro do Jaguar não deixa de ser um muito razoável romance histórico, visão épica de vários desastres civilizacionais no Brasil de oitocentos. Para atingir outro nível, teria sido necessário que a inspiração wagneriana, assumida pelo autor, tivesse passado da partitura do compositor alemão para a linguagem do livro. Apesar do notório empenho de Murilo Carvalho, a verdade é que não passou.

Avaliação: 6/10

[Texto publicado no suplemento Actual do semanário Expresso]



Comentários

5 Responses to “Um épico wagneriano no sertão”

  1. Blurb do ano | Bibliotecário de Babel on Abril 1st, 2009 12:49

    […] Um épico wagneriano no sertão […]

  2. Gabriel on Abril 1st, 2009 15:29

    6/10 mas no entanto este livro mereceu tanto ou mais destaque no Expresso e neste blogue do que tantos outros bem melhores. É a Leya senhores, é a Leya.

  3. José Mário Silva on Abril 1st, 2009 15:37

    Não, caro Gabriel, é o vencedor do maior prémio atribuído no mundo lusófono a um só livro. Parece-me óbvio que a curiosidade se justifica e o interesse jornalístico também.

  4. João on Abril 1st, 2009 20:23

    Fala alguma coisa sobre as línguas dos índios (a única coisa que me poderia interessar)?

  5. Jonas on Junho 22nd, 2009 22:29

    A verdade é que Murilo Carvalho não obteve a unanimidade do aplauso brasileiro porque, em várias passagens do livro, ele não foi nada meigo com os erros do Brasil pós-colonial. Até então, como se sabe, todos os males do Brasil se têm atribuído aos portugueses, mas afinal, também eram os negros e os índios que eram mandados para a frente das batalhas…muito depois dos portugas se terem retirado…
    Um Brasil multiracial, continua sendo um embuste…
    Grande trabalho de Murilo Carvalho, que bem mereceu os 100 mil euros do prémio…

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges