Um feixe de sopros

Que se diga que vi como a faca corta
Autor: Miguel Cardoso
Editora: Mariposa Azual
N.º de páginas: 89
ISBN: 978-972-8481-10-9
Ano de publicação: 2010

Neste ano que tem sido pródigo em estreias poéticas fulgurantes – veja-se o caso de Margarida Vale de Gato, entre outros –, Miguel Cardoso (n. 1976) emerge como um dos novos autores que valerá a pena acompanhar mais de perto. O seu primeiro livro, Que se Diga que Vi como a Faca Corta, remete logo no título para a órbita de Herberto Helder. Todavia, os evidentes pontos de contacto com a escrita do autor de A Faca Não Corta o Fogo – poemas longos; imagens fortes; linguagem ao mesmo tempo obscura e exaltante, densa, visceral – nunca o reduzem à condição de epígono. E ainda bem, porque os epígonos de Herberto costumam ser meras caricaturas de Herberto.
O que mais impressiona neste livro é o seu tremendo fôlego lírico e o modo ávido como a escrita parece querer devorar a realidade palpável do mundo (através de um «feixe de sopros / e sons e olhos soltos»). Miguel Cardoso delimita desde logo um espaço poético: precário, ameaçado, sujeito a contínuos recomeços e «ténues colapsos». Um espaço que se desmancha e refaz no fim de cada estrofe, de cada poema, deixando de lado quaisquer ilusões de demiurgo: «Nem êxtase nem furor / nem devastação, nem nada. / Compõe ainda assim / como se houvesse».
Mais do que encontrar um sentido para as coisas, o que importa é a exploração do poder incalculável da linguagem, com as suas descontinuidades e abismos, parêntesis e cesuras, frinchas e nesgas, dobras e vincos. O programa é claríssimo: «trabalhar a espessura, a tracção subtil». Como? Trazendo «as palavras de volta ao esforço», fazendo da «imprecisão» a «mais exacta ciência» e não tendo medo de assumir, em diálogo cifrado com outros artistas (Sophia acima de todos, mas também Cézanne e as suas paisagens), uma espécie de vertigem: «A nós coube-nos a desmesura». Mesmo se a desmesura acaba por não conduzir a lado nenhum: «É preciso arrumar os despojos, correr as persianas. / Tenho agora o rosto em ruínas, a voz mais branda, // As mãos desfocadas. Esqueci-me dos caminhos / Onde procurámos o distraído ruído dos outros.»

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no número 94 da revista Ler]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges