Um homem determinado

O Livro Negro
Autora: Hilary Mantel
Título original: Bring Up the Bodies
Tradução: Miguel Freitas da Costa
Editora: Civilização
N.º de páginas: 439
ISBN: 978-972-26-3594-3
Ano de publicação: 2013

Poucas épocas da História inglesa foram tão escrutinadas pela literatura como o reinado de Henrique VIII, o monarca conhecido por ter casado seis vezes. Hilary Mantel, uma grande escritora a quem durante décadas faltou o reconhecimento pela excelência da sua prosa, entrou por isso num território já muito explorado quando publicou Wolf Hall (2009), um romance que conduzia mais uma vez os leitores contemporâneos através dos labirintos de intriga e conspiração na corte dos Tudor, a braços com uma crise dinástica nas primeiras décadas do séc. XVI.
As circunstâncias são por demais conhecidas: obcecado pela necessidade imperiosa de um sucessor, Henrique VIII separou-se da rainha que só lhe deu uma filha (Catarina de Aragão) e casou novamente (com Ana Bolena), provocando um cisma com a Igreja de Roma. O golpe de asa de Mantel foi centrar o seu livro não na figura do rei mas na de Thomas Cromwell, o seu secretário-mor, tradicionalmente representado como um vilão determinadíssimo e ambicioso, inteligente e cruel, que veio do nada para se tornar o braço-direito do monarca, o seu cão de guarda, responsável pelo lado mais negro e sujo de uma diplomacia que não olhava a meios para atingir os fins.
Em Wolf Hall, assistimos à ascensão de Cromwell, filho de um ferreiro que se ergue a pulso até aos círculos mais altos do poder, terminando com a condenação e execução de um dos seus muitos inimigos: Thomas More. Em O Livro Negro, segundo volume de uma trilogia (distinguido, tal como o primeiro, com o Booker Prize), a escrita de Mantel – que conseguiu o feito de tornar verdadeiramente literária a ficção histórica – é ainda mais depurada e precisa, à medida que acompanha as diligências, esquemas e manobras de Cromwell, com vista a trocar Ana Bolena (também ela incapaz de dar à luz um rapaz) pela nova amante do rei, Jane Seymour.
A figura de Cromwell – um homem com «pele de lírio» e olhar «direto e brutal», que deu o nome da mulher e das filhas mortas aos seus falcões – surge nestas páginas com a nitidez do retrato de Hans Holbein, descrito por Mantel como se fosse uma metonímia da personalidade do seu anti-herói. Não deixando de ser um fresco da sociedade inglesa da época, O Livro Negro traz-nos sobretudo a visão de uma personagem que molda, na sombra, o destino de um país. Com perto de 50 anos, Cromwell está no auge das suas capacidade políticas – é genial a forma como arquitecta a queda de Ana Bolena, aproveitando para se vingar ao mesmo tempo dos homens que desgraçaram o cardeal Wolsey, seu mentor – mas não ignora que a confiança depositada em si pelo rei é precária. Ou seja, também ele pode cair um dia; como descobriremos no muito aguardado terceiro tomo da trilogia (O Espelho e a Luz).
Mantel articula com elegância e vigor narrativo as muitas pequenas histórias de que se faz a grande História. Porém, é na perfeição estilística que o seu triunfo se materializa. Veja-se como transforma, em meia dúzia de linhas, o relato de uma viagem na manifestação de um estado de espírito, de uma angústia: «Certas imagens serão tudo o que resta da viagem ao centro de Inglaterra. Os bagos de azevinho a arder nas suas matas. O voo sobressaltado de uma galinhola, afugentada de quase debaixo dos seus cascos. A sensação de nos aventurarmos num lugar aquoso, onde solo e pântano são da mesma cor e não há nada sólido debaixo dos nossos pés.»

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

Comments are closed.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges