Um jardim para Sophia

Evocação de Sophia
Autor: Alberto Vaz da Silva
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 102
ISBN: 978-972-37-1453-1
Ano de publicação: 2009

Das muitas formas possíveis de evocar Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), Alberto Vaz da Silva (AVS) escolheu uma das menos ortodoxas, ao acrescentar às previsíveis recordações pessoais uma abordagem astrológica e grafológica da homenageada. Discreto por natureza, o autor mantém uma distância de segurança face ao objecto do discurso, como que para respeitar a essência do mistério de Sophia. Amigo próximo da escritora, AVS nunza faz alarde dessa amizade, nem do facto de a ter acompanhado em alguns dos melhores e piores momentos da sua vida.
Se menciona, por exemplo, uma viagem que os dois fizeram à Sicília, em 1990, com a mulher de Alberto (Helena Vaz da Silva) e João Bénard da Costa, é para recuperar a felicidade desse mergulho nas raízes da nossa civilização e sublinhar a certeza de que «ela pertencia às colunas gregas que se erguem como hieróglifos secretos na luz mediterrânica». E se relembra os interrogatórios da PIDE, a que ambos foram sujeitos por terem subscrito o «Documento dos 101», é apenas para revelar a têmpera e coragem de quem nunca se resignou com o estado das coisas: «Esta Sophia dos tempos duros da resistência ao salazarismo, da luta pela liberdade e pela justiça, constitui o núcleo da minha memória.» Uma memória singular e à sua maneira poética, porque sempre amparada, na sua trajectória, pelas palavras de Sophia: versos escolhidos, excertos de cartas a Jorge de Sena, dedicatórias em livros, prosas da escritora sobre as casas onde viveu. No posfácio, José Tolentino Mendonça aponta em AVS uma «sabedoria de jardineiro» e esta Evocação pode realmente ser vista como um jardim, a que os canteiros dedicados ao perfil astrológico e à análise da caligrafia, actividades caras ao autor, em minha opinião nada acrescentam de relevante.
Essencial é o prefácio de Maria Velho da Costa, Sophia: Vozes, 17 páginas belíssimas com «cenas vivas» da intimidade das duas escritoras, que diziam os respectivos nomes em francês e se deixavam ficar à noite a falar no alpendre, depois da praia, brilhando «na meia obscuridade como as estrelas que se viam no céu limpo». Dezassete páginas magníficas que de certa forma eclipsam, mesmo se involuntariamente, o resto do livro.

Avaliação: 5,5/10

[Texto publicado no número 89 da revista Ler]



Comentários

One Response to “Um jardim para Sophia”

  1. fallorca on Abril 27th, 2010 21:21

    Vou seguir o teu conselho: é raro encontrar-se vozes tão autorizadas num mesmo livro. Abraço

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges