Um livro de areia

Uma Mentira Mil Vezes Repetida
Autor: Manuel Jorge Marmelo
Editora: Quetzal
N.º de páginas:
206
ISBN: 978-972-564-972-5
Ano de publicação: 2011

O novo livro de Manuel Jorge Marmelo (MJM) pertence à linhagem das ficções que se alimentam da própria ideia de literatura, pondo à vista do leitor, numa espécie de striptease conceptual, alguns dos seus mecanismos internos. Não por acaso, há no texto referências explícitas a vários escritores – como Jorge Luis Borges, Roberto Bolaño, Enrique Vila-Matas, Julio Cortázar ou Italo Calvino – que também fizeram do acto de criação literária a matéria-prima de muitos dos seus actos de criação literária, passe a redundância.
Em Uma Mentira Mil Vezes Repetida, nono romance de MJM (e talvez o seu melhor), o que está em causa é um embuste, uma falsificação intelectual. Reformado por invalidez aos 36 anos, devido a uma «agressiva doença de pele provocada pelo implacável stresse do funcionalismo público», o narrador do livro anda às voltas pela cidade do Porto, viajando nos transportes públicos com um calhamaço de 1200 páginas. A qualquer passageiro que demonstre um mínimo de curiosidade, ele explica que Cidade Conquistada é o único e extraordinário romance de Oscar Schidinski, judeu húngaro que passou por Lisboa em fuga da ameaça nazi e dos «seus próprios fantasmas», um autor esquecido mas genial, entretanto transformado numa «das mais obscuras lendas literárias do século XX».
O problema, claro está, é que o livro nunca existiu. Devidamente encadernado, o cartapácio que o narrador mitómano finge ler não passa de uma «colagem de textos avulsos escolhidos quase sem critério, copiados da internet». Todas as histórias de Cidade Conquistada, bem como as incidências biográficas do fictício Schidinski, saem da sua imaginação de escritor frustrado, incapaz de escrever por si mesmo uma obra-prima, e que por isso encontra na invenção de um livro raro, misterioso, impossível, o meio mais rápido de aceder à «celebridade». No seu delírio, ele sonha um dia falar sobre Schidinski na televisão e em conferências eruditas, tornando-se famoso por causa disso. Em suma, além de mentiroso compulsivo, este típico narrador não fiável (porque nada do que afirma pode ser tomado como certo) é também um pobre diabo cheio de ilusões.
Enquanto molda o «enredo movediço» do livro, sempre em função de quem o ouve em cada momento, ele vai erguendo um universo ficcional desordenado mas fascinante, não só dentro das fronteiras do romance – em que acompanhamos a vida atormentada de Marcos Sacatepequez, escritor do Belize que leva à falência todas as editoras que o publicam e termina os seus dias na ilha caboverdiana de Santo Antão; mas também a deriva do marinheiro flamengo Albrecht, amaldiçoado pelo cadáver errante e insepulto de Sacatepequez – como fora dele, à medida que cria a incerta biografia de Schidinski, mais os seus improváveis encontros e amizades, nomeadamente com Afonso Cão, mendigo português muito digno mas destrambelhado.
O narrador não ignora que um romance está por natureza incompleto: «há sempre alguma coisa que pode ser acrescentada, melhorada ou eliminada, fios que podem ser atados, observações mesquinhas que podem ser rasuradas em benefício de uma certa fluidez do texto». À medida que vai alterando a estrutura e o conteúdo de Cidade Conquistada, reconhece que a «sua» obra não tem fim. Tornou-se «virtualmente inesgotável, como um livro que pudesse ser reinventado todos os dias e desdobrar-se continuamente». De certo modo, assemelha-se ao «livro de areia» que surge num conto de Borges, «objecto de pesadelo» porque infinito, «coisa obscena que infamava e corrompia a realidade». Tal como o protagonista desse conto, também o narrador de Uma Mentira Mil Vezes Repetida se torna «prisioneiro do livro» e sente a necessidade de o perder para se libertar do «monstruoso» sortilégio.
O principal mérito de MJM está na forma como consegue manter a sensação de claustrofobia narrativa, sem deixar que o leitor se perca no caos de repetições, incongruências e «solavancos lógicos». Muito bem escrito, o livro oferece-nos pelo menos dois pastiches brilhantes: um de García Márquez (a cidade de Polvorosa, uma espécie de Macondo onde se produz cacau em vez de bananas); outro de Thomas Pynchon (a barafunda postal de Granada). Já o desenlace, em que se esboça uma redentora mas algo forçada história de amor, fica aquém do que um romance tão abertamente contrário às convenções romanescas exigia e merecia.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

2 Responses to “Um livro de areia”

  1. Esta semana « Rascunhos on Outubro 10th, 2011 6:51

    […] – Uma Mentira Mil Vezes Repetida – Manuel Jorge Marmelo (Bibliotecário de Babel) […]

  2. Lançamento de ‘Uma Mentira Mil Vezes Repetida’ | Bibliotecário de Babel on Outubro 24th, 2011 16:35

    […] último romance de Manuel Jorge Marmelo, um dos melhores publicados este ano por autores portugueses, vai ser apresentado por Hélia […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges