Um palco para gestos simples

Quando escreve descalça-se
Autor: Miguel-Manso
Editora: Trama
N.º de páginas: 91
ISBN: 978-989-20-1403-6
Ano de publicação: 2008

Ao publicar dois livros num intervalo de poucos meses, primeiro Contra a Manhã Burra (edição de autor, Maio de 2008) e logo depois este Quando escreve descalça-se (Trama, Novembro de 2008), ambos com tiragens baixíssimas, Miguel-Manso (n. 1979) conseguiu dar um safanão valente na algo amodorrada poesia portuguesa, que há muito não assistia a uma estreia com tanta qualidade e potencial.
Circunscrever este autor não é fácil, tão vasto se revela o espectro dos seus temas e modos de escrita, mas há pelo menos três características que se mantêm de um livro para o outro: 1) o diálogo frutuoso com outros autores (agora Cesariny, Cortázar, Sebastião Alba e, sobretudo, Ruy Belo); 2) a desconcertante arquitectura dos poemas e a sua respiração; 3) uma irónica desconfiança quanto ao lugar que a poesia ocupa na incerta ordem das coisas. Vale a pena determo-nos neste último ponto, porque Miguel-Manso insiste numa espécie de sabotagem sistemática do seu próprio discurso. Na página 19, por exemplo, refere-se ao «erro juvenil que é fechar um poema / com a palavra morte», quando é precisamente com a palavra «morte» que fecham o poema da página anterior e também o da página 65. Outras vezes, o sujeito poético dirige-se directamente ao leitor, aconselhando-o a avançar «para o poema seguinte / sem grandes remorsos».
Esta aparente descrença tem qualquer coisa de paradoxal, pois coexiste com a noção do poder infinito das palavras, capazes de explosões líricas que abalam os próprios alicerces do universo (veja-se o poema cosmogónico sobre a «presença volátil da amada»). Seja a descrever um café húngaro ou uma aldeia ribatejana, as tainhas de Veneza, uma melodia ouvida no auto-rádio ou o fragmento de um diário inventado, Miguel-Manso procura sempre a beleza que há nas ruínas. Aqui e ali, a sua perícia vocabular descamba em virtuosismo gratuito («o nímio céu nimbou de pez o nimbífero dia») ou em versos tão cifrados que se tornam inacessíveis. Os melhores poemas, pelo contrário, são «um palco para gestos simples», até porque «o poeta trabalha com o que tem // um muro com hortênsias / ao fim da tarde um punhado de / estrelas sobre a baía».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 79 da revista Ler]



Comentários

2 Responses to “Um palco para gestos simples”

  1. enrabador de pulhas on Maio 11th, 2009 13:46

    o teu amigo miguel!!!

  2. O guerrilheiro | Bibliotecário de Babel on Julho 10th, 2009 6:53

    […] o primeiro em Maio de 2008 (Contra a Manhã Burra, edição de autor), o segundo em Novembro (Quando Escreve Descalça-se, Trama), mereceram elogios dos críticos do Expresso e deram-lhe o estatuto de revelação […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges