Um palimpsesto prodigioso

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Autor: Mathias Énard
Tradução: Pedro Tamen
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 469
ISBN: 978-972-20-4035-8
Ano de publicação: 2010

Francis Servain Mirković, espião de origem croata, sobe para o comboio Milão-Roma como quem prepara um apocalipse pessoal (revelação e fim do mundo). Na sua maleta transporta documentos com milhares de nomes: os nomes de carrascos e vítimas das muitas guerras a que a orla mediterrânica assistiu nas últimas décadas. São segredos acumulados durante anos de trabalho nos serviços secretos franceses, informação de que pretende desfazer-se, vendendo-a ao Vaticano para depois iniciar uma vida nova.
Ele define-se como um «historiador da sombra», um «arqueólogo da loucura» que sondou «coisas desaparecidas, enterradas, para delas fazer brotar cadáveres, esqueletos, fragmentos, restos de histórias». E é tudo isso, a densa rede de experiências pessoais e alheias, sobrepostas como «uma teia de aranha em redor do vazio», é tudo isso que converge para a sua cabeça insone, na travessia da noite e da memória. No longo monólogo interior de Francis (só interrompido pela leitura de um livro dentro do livro, também ele sobre a guerra e suas devastações), cabe um inventário bastante completo do horror no século XX, mas também no passado mais remoto, de Tróia a Lepanto, de Homero a Cervantes.
Ao longo da viagem, a maleta esvazia-se como a caixa de Pandora, um catálogo de males sem direito à esperança. E a imensa frase única, que atravessa as quase 500 páginas deste prodigioso palimpsesto, cerca-nos e morde-nos e esmaga-nos, até à rendição incondicional.

Avaliação: 9,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

One Response to “Um palimpsesto prodigioso”

  1. Mathias Énard: “Apoiei-me em Homero, não para escrever como ele, mas com ele” | Bibliotecário de Babel on Julho 21st, 2010 15:27

    […] Um palimpsesto prodigioso […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges