Um rasto só de beleza

Cinemateca
Autor: Eucanaã Ferraz
Editora: Quasi
N.º de páginas: 100
ISBN: 978-989-552-276-7
Ano de publicação: 2009

Depois de Desassombro (2001) e Rua do Mundo (2006), este é o terceiro livro publicado em Portugal, sempre nas Quasi, por Eucanaã Ferraz, um dos mais sólidos e originais poetas brasileiros da actualidade. A sua escrita, assente numa admirável precisão rítmica e numa procura dos limites formais de cada poema, entende a linguagem como um campo de experimentações que nunca se desliga do real, enquanto contingência e destino do discurso poético.
O programa de Cinemateca, composto por 50 poemas-filmes autónomos, talvez se possa resumir nestes versos: «Abra-se tudo / em grande-angular». De facto, a lente através da qual Eucanaã observa a realidade é a mais abrangente, a que mais consegue expandir o campo visual. As imagens, porém, nunca são fixas, estão sempre em movimento, através de complexas derivas semânticas e da acumulação de elementos da memória própria ou alheia (a euforia infantil, a melancolia dos adultos), uma rede de histórias que se transfiguram e não chegam a dizer tudo, perdidas algures na busca de um «rasto só de beleza».
Ao longo das três partes em que o livro se divide – «1.ª luz», «2.ª luz» e «3.ª luz» –, desenha-se um percurso que vai das atmosferas matinais, cheias de claridade e leveza, ao negrume mais fundo das crónicas nocturnas de amor e desencontro. Pelo meio, Eucanaã evoca de várias formas o esplendor da natureza (com os animais, plantas, cores, arquitecturas) e estabelece diálogos subtis com outros poetas, alguns deles portugueses (Herberto Helder, Eugénio de Andrade, Jorge de Sena).
«O poema ensina a cair», escreveu Luiza Neto Jorge. Eucanaã vai no sentido inverso, como explica numa arte poética a que chamou «sumário»:

O poema ensina a estar de pé.
Fincado no chão, na rua, o verso
não voa, não paira, não levita.

Mão que escreve não sonha
(em verdade, mal pode dormir à luz
das coisas de que se ocupa).

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 79 da revista Ler]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges