Um regresso errante

blues_fallorca

Blues para uma puta velha
Autor: Jorge Fallorca
Editora: &Etc
N.º de páginas: 99
ISBN: 978-989-8150-21-9
Ano de publicação: 2010

Escritos em 2008 e publicados «aleatoriamente» no blogue da editora Frenesi, estes textos autobiográficos de Jorge Fallorca prosseguem uma espécie de itinerário das suas errâncias e vagabundagens, tanto geográficas como intelectuais. Desta feita, em vez de viajar para o «seu» Sul – o Marrocos de Al-Khaïma (Teorema, 2004) ou o Algarve de A Cicatriz do Ar (edição de autor revista e aumentada, 2009) –, Fallorca ruma a Mortágua, vila natal, onde se instala durante quatro meses numas águas-furtadas, em retiro com laivos de terapia.
Tomando notas a lápis no «café ao lado da Câmara», ele narra de forma desprendida o seu quotidiano: as manhãs que começam tarde, o périplo por ruas e tascas, a vontade de usar uns guaches comprados para o sobrinho-neto, a tradução de As Vozes do Rio Pamano (magnífico romance de Jaume Cabré), a mãe com Alzheimer (para quem ele passou a ser «uma sombra que lhe leva sempre bombons»), as leituras e releituras (Chatwin, Sebald, Freud, Michaux), os encontros fortuitos, mas sobretudo a invasão, a cada passo, da infância – através de sítios e figuras do passado remoto que a memória vai acendendo.
Tudo escrito e descrito sem pompa nem alarde, a prosa rente à terra, feita de minudências, caótica, com parágrafos que não se querem «de ferro forjado». Aliás, «a escrita perde sempre piada» quando se permite «que a literatura comece a meter o bedelho». E Fallorca, muito à sua maneira, não permite.

Avaliação: 6,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges