Um remexer no escuro

casa em chamas

Caminho como uma Casa em Chamas
Autor: António Lobo Antunes
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 357
ISBN: 978-972-20-5588-8
Ano de publicação: 2014

Os dois romances anteriores de António Lobo Antunes – Comissão das Lágrimas (2011) e Não é Meia Noite Quem Quer (2012) – centravam-se numa personagem feminina muito forte. Era dentro das protagonistas, no seu espaço mental, que as coisas aconteciam e as histórias, próprias ou alheias, se misturavam. Em Caminho como uma Casa em Chamas, o escritor preferiu uma estrutura aparentemente mais convencional, já utilizada por muitos outros autores (de Georges Perec a Alaa El Aswany, passando por Nuno Camarneiro, um recente Prémio LeYa, e até pelo Saramago de Claraboia), e que consiste em descrever a vida dos habitantes de um prédio. Neste caso um edifício lisboeta, «a um canto da cidade, longe do rio».
Tratando-se de Lobo Antunes, era improvável que o romance se deixasse enclausurar em esquemas formais rígidos. De facto, isso não acontece. Cada capítulo leva-nos a um dos oito apartamentos (do R/C esquerdo ao 3.º direito, mais o sótão supostamente desabitado) mas depressa percebemos que os inquilinos vivem em casulos quase estanques, interagindo pouco uns com os outros. Eles sabem bem «a quantidade de coisas de que o passado é feito», porque só se podem agarrar à memória. São quase todos velhos mais ou menos próximos da morte, solitários com tendência para o delírio, deserdados do amor, esquecidos pelos filhos que só aparecem, quando aparecem, para lhes exigir dinheiro.
Nesta pequena galeria há lugar para um advogado viúvo, submisso toda a vida à mulher, que o humilhava; para uma actriz indiferente às «traições do tempo», alucinada, julgando-se ainda rainha de um público invisível («eles adoram-me!»); para uma juíza com medo da decadência física, a quem um amante mais novo chama «esquilozinho gorducho», e que toca piano rodeada de um «excesso de tralha», enquanto evoca a infância em Castelo Branco e os «vapores da Gardunha ao longe»; para dois judeus ucranianos, irmão e irmã, assombrados pelo terror de que fugiram; para um coronel que esteve em Angola e amou uma mulata (deixada para trás no regresso, talvez grávida), e cuja imagem, mesmo «agora que tudo acabou», ainda o persegue; e para outras figuras igualmente trágicas, patéticas, ou apenas sujeitas à «ruína das coisas».
O mais admirável neste romance é a forma como Lobo Antunes cria a sua habitual polifonia em cada um dos núcleos – essa complexa sobreposição de tempos e espaços que está na matriz da sua escrita – mas depois os consegue misturar através de ecos e estribilhos, rastos de frases que saltam de uma casa para outra. Apesar das diferenças entre os vários planos narrativos que coexistem debaixo do mesmo telhado, há também muito em comum: uma mesma «poeira ténue de imagens, vozes, sons» a «atravessar-nos a cabeça misturando os pensamentos e diluindo as ideias», a permitir «um remexer no escuro», uma exploração do que há de mais íntimo e secreto em cada personagem.
No final, a figura de Salazar, omnipresente ao longo do livro enquanto memória do Portugal em que estas pessoas cresceram, materializa-se no sótão, «cubículo sujo» onde se esconde o «senhor doutor sempre de fato e gravata, sempre bem penteado», mesmo se a roupa já está no fio e as botas gastas, «uma das solas aberta com os preguinhos ao léu». Ele é «a presença atenuada de uma autoridade extinta», convencido de que ainda dirige o país, quando na verdade depende da «sopinha» quotidiana, trazida pela dama de companhia da actriz que mora mesmo em baixo, e terá sido um dia sua amante.
Além de uma síntese dos principais temas lobo-antunianos (famílias em ruínas, África e os restos do império, solidão, miséria existencial, trabalho da memória), este romance é também o retrato duro de um país que ainda tem, sobretudo em gerações mais velhas, as marcas do salazarismo no seu subconsciente colectivo.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

2 Responses to “Um remexer no escuro”

  1. José Nogueira on Novembro 12th, 2014 19:47

    O texto é muito interessante, José Mário, mas a avaliação faz-me muita confusão… Tendo em conta que avaliou (a palavra soa terrivelmente), por exemplo, o livro do Bruno Vieira Amaral com 8,5, como é que este livro pode ter um 8? Podemos assumir que considera “As Primeiras Coisas” um livro superior a “Caminho Como Uma Casa em Chamas”? Eu concordo com a qualidade do livro do BVA, mas a ideia de ele se equiparar sequer a qualquer livro de António Lobo Antunes parece-me, no mínimo, risível.

  2. djamb on Novembro 13th, 2014 15:55

    Ainda não tive oportunidade de ler António Lobo Antunes, mas este post suscitou-me ainda mais a curiosidade. Obrigada pela partilha :)
    Boas leituras!

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges