Um sedativo moral

Canções Mexicanas
Autor: Gonçalo M. Tavares
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 88
ISBN: 978-989-641-262-3
Ano de publicação: 2011

No ano passado, Alexandra Lucas Coelho publicou um livro de viagens (Viva México, Tinta da China) que captava, com nitidez, a escala imensa e a pulsação da Cidade do México, antes de viajar para outras regiões do país. Em Canções Mexicanas, Gonçalo M. Tavares assinala alguns dos espaços por onde andou a jornalista – lugares obrigatórios como a praça do Zócalo, a casa de Frida Kahlo e os murais de Rivera – mas sublimados (ou, melhor dizendo, distorcidos) pelo trabalho da ficção. Onde Lucas Coelho era objectiva como uma repórter deve ser (mesmo quando foge, com brilho, aos espartilhos jornalísticos), Tavares deixa-se tomar pelos delírios do mezcal, que provoca redemoinhos «em cima da cabeça» de quem o bebe e entorna a realidade para o lado da alucinação, ao mesmo tempo que funciona como «sedativo moral» para o excesso de violência.
A Cidade do México tem, sobre o narrador destas histórias curtas e oníricas, um efeito semelhante ao da tarantela, esse ritual das pessoas que foram picadas por uma aranha venenosa e têm de dançar para não morrer. É isso que a prosa de Tavares faz: dança para não morrer, cura-se pelo movimento, segue o fluxo das multidões («não há rua, não se vê o chão, se olhas para baixo és empurrado, se olhas para cima és empurrado»), os textos correm, saltam, tropeçam, tentam escapar para longe dos bairros tenebrosos onde o fio de uma navalha espera o turista incauto, o estrangeiro vulnerável. Enquanto isso, na praça central, muito lentamente, ano após ano, milímetro a milímetro, a catedral vai sendo engolida pelo solo, «enterrada como um vivo que enquanto caminha se afunda». Algo que também acontece a todos nós – e só «não o notamos porque é no tempo, não no espaço».
Aqui tudo é estranho, tudo é excessivo. Numa ponta da cidade, esconde-se o homem mais feliz do mundo, «um passo antes de começar o inferno». Há ameaças brutais («se gritas, cortam-te a cabeça»), uma Maldade que é nome próprio (da dona de um tugúrio onde se organizam combates de galos), há crianças que se alimentam de ódio, há marginais, anões, pedintes, hordas de loucos, metafísicos cavalos de Quixote (sem Quixote), matilhas de cães esfomeados, há uma prostituta que pergunta pelo «plano de viagem» do cliente e lhe pede que beije os pés de um crucifixo, há pedradas que rasgam um ecrã de cinema, suicidas que não conseguem morrer e reincidem.
Ao captar o avesso do México exótico, Gonçalo M. Tavares experimenta novos caminhos para a sua escrita, descentrando-a da matriz original (mais controlada e europeia), mas nunca perdendo a identidade.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 109 da revista Ler]



Comentários

2 Responses to “Um sedativo moral”

  1. Francisco on Fevereiro 21st, 2012 0:35

    Boa noite, José Mário Silva. Sou um dos editores da revista literária e digital Macondo. Passo para informá-lo que, em nosso último número, indicamos o seu site na seção “espaço virtual”. Espero que não haja nenhum problema e parabéns pelo ótimo trabalho realizado por aqui. Abraço,

  2. José Mário Silva on Fevereiro 21st, 2012 8:16

    Claro que não há problema nenhum, Francisco. É uma honra.
    Obrigado.
    Abraço

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges