Um silêncio sísmico

O Perdão dos Pecados
Autor: Antonio Fontana
Título original: El Perdon de los Pecados
Tradução: Luís Filipe Sarmento
Editora: Minotauro
N.º de páginas: 133
ISBN: 978-972-44-1556-7
Ano de publicação: 2010
Segundo romance do escritor e crítico literário espanhol Antonio Fontana, O Perdão dos Pecados é um livro sobre a culpa e o remorso. Enquanto regressa à aldeia natal, contrariada mas obedecendo ao telefonema nocturno que a avisou da morte misteriosa – porque simultânea – da mãe e da irmã, Ângela mergulha a fundo nas suas memórias. A viagem no comboio a cair de velho é um percurso no tempo, mais do que no espaço, entre o presente da vida em Madrid e o passado negro em Barranca, esse território das origens, hoje perdido nos confins rurais da Espanha que ficou à margem do desenvolvimento económico. Enquanto o anacrónico trânsito ferroviário se processa, apeadeiro a apeadeiro, a protagonista e narradora da história recupera para si mesma, num discurso elíptico, as zonas de sombra da recalcada narrativa familiar, os interditos e traumas, as muitas feridas que podem na aparência estar saradas mas «por dentro mantêm todo o seu ardor e veneno».
Tal como o pai, que abandonou a família de repente, também ela fugiu um dia, deixando para trás a mãe, sozinha com o fardo de uma filha mais nova que sofre de paralisia cerebral, essa irmã que Ângela era suposto proteger mas em vez disso traiu, primeiro por omissão (como Pedro negando Cristo), depois quase por acção (num impulso digno de Caim), e finalmente pela distância a que se colocou, lá em Madrid, incapaz de romper o cerco da má consciência e das suas próprias ilusórias miragens de felicidade.
Ainda no comboio, Ângela lê Rebeca, de Daphne Du Maurier, e sabe que Barranca é a sua Manderley («esse lugar, distinto para cada pessoa, com que sonhamos mas ao qual ninguém deseja regressar»). A acrimónia e as surdas recriminações dos habitantes da aldeia apenas confirmarão essa certeza.
Numa narrativa densa e com certa ressonância unamuniana, o principal mérito de Fontana consiste em expor o tema da culpa sem o lastro do moralismo católico. O estilo é de uma admirável contenção expressiva, aqui e ali iluminada por pequenos achados verbais: o «silêncio sísmico» que precede a deserção paterna, uma porta que se fecha «com um ruído de mandíbulas» ou as badaladas impossíveis do relógio da avó.
Avaliação: 8/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
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