Um tempo sem bainha

O cão das ilhas
Autora: Maria da Conceição Caleiro
Editora: Sextante
N.º de páginas: 269
ISBN: 978-989-8093-86-8
Ano de publicação: 2009

No princípio, é a fuga. Perseguido por amar quem não devia, num arquipélago atlântico nunca nomeado (mas que só pode ser os Açores), Rafael escapa à «insânia» insular e aos seus atavismos sociais. A bordo de um cargueiro, viaja clandestino até ao porto francês do Havre, ferido depois de se lançar no «buraco negro» do porão, cheio «de lâminas que pareciam aguçadas» e «de espadas na boca do breu». Onde se lê porão, leia-se passado. Porque embora a sua vida pareça endireitar-se, sobretudo a partir do momento em que chega a Paris e seduz uma compatriota (Pilar), Rafael nunca cura a ferida original, a negação do amor por Zarina (Cesarina) que há-de envenenar tudo e provocar nele uma espécie de deriva sonâmbula por «um tempo sem bainha». Outras personagens consertam o passado, enganando-o, como Melina: «Trato-o como se fosse uma festa de carnaval, encho-o de máscaras e de plumas.» Mas para Rafael o que vem de trás é um «cortejo fúnebre», uma enxurrada, torvelinho de fantasmas que não se pode conter e que desemboca, fatalmente, numa tragédia.
Romance polifónico, feito de vozes que se cruzam, completam e contradizem, O cão das ilhas é um livro canibal; ou melhor, um livro autofágico, que se alimenta tanto da tradição literária de que emerge como da sua própria matéria textual – essas «imagens ao assalto de muitas outras imagens». Mais do que a história que narra (simples e arquetípica de um certo machismo lusitano), o que interessa a Maria da Conceição Caleiro parece ser o exercício da linguagem e as oscilações do estilo: da nebulosa lírica inicial à crueza fotográfica dos capítulos intermédios, culminando na vertigem da última parte (em que restam apenas vozes; vozes perdidas no escuro e entregues a um strindberguiano «teatro das almas»).
Por arriscar muito no romance de estreia, Conceição Caleiro nem sempre consegue controlar o ímpeto da prosa. Há dezenas de páginas sem mácula, exemplares, mas também algumas passagens menos conseguidas, hesitações, excrescências. Nada que afecte a certeza de estarmos perante uma verdadeira escritora, ainda por cima capaz de escrever cenas de sexo com uma intensidade erótica e uma verosimilhança raríssimas na literatura portuguesa.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no número 84 da revista Ler]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges