Um todo a partir de muitas vozes

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Teoria dos Limites
Autora: Maria Manuel Viana
Editora: Teodolito
N.º de páginas: 159
ISBN: 978-989-8580-19-1
Ano de publicação: 2014

No funeral de um grande Escritor, reúne-se o seu círculo mais íntimo: a filha, Mariana; as sobrinhas (Ana Sofia e Ana Lúcia); o irmão mais velho; a mãe. Cada um deles assumirá, a seu tempo, o primeiro plano da narração, através de uma rede apertada de monólogos interiores, sonhos, segredos, factos remotos que subitamente se acendem na memória, um novelo que dá sentido à história de uma família ao mesmo tempo tão complexa e tão vulgar como outra família qualquer.
O vértice da ficção é carregado por Mariana: a hipótese de existir um livro póstumo do Escritor, de quem foi secretária e que nunca a tratou como filha – sendo que a mãe, desaparecida de cena quando ela era bebé, permanece um mistério familiar. Nesse livro, com título escolhido (Teoria dos limites), tudo remeteria para as ideias de Leibniz e a sua «concepção do mundo», nomeadamente a monadologia, a «pirâmide dos mundos possíveis» e a língua universal imaginada pelo filósofo alemão.
Mais interessante do que a suspeita de que esse livro vago e por completar, cujo material se resume a oito páginas A4 cheias de esquemas enigmáticos, possa ser o próprio romance que estamos a ler; mais impressionante do que a subtil assimilação dos princípios leibnizianos (sobretudo o que defende a «construção de um todo a partir de muitas vozes»); mais entusiasmante ainda do que a perfeição estrutural da ficção labiríntica é a escrita de Maria Manuel Viana, o fulgor de uma prosa que atravessa, como um cometa, os lugares sombrios ou precários das personagens. Este é um romance denso, melancólico, belíssimo, sobre o que há de mais profundo e frágil 
na condição humana.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges