Um veneno sem antídoto

Pequeno divertimento sobre literatura em cem lições também conhecido sob o título Substâncias Perigosas em que se explica por que meios os livros matam os seus leitores & onde se dão variados e mui instrutivos exemplos ao alcance do comum dos mortais
Autor: Pedro Eiras
Editora: Livrododia
N.º de páginas: 211
ISBN: 978-972-8979-35-5
Ano de publicação: 2010

Ensaísta, dramaturgo, poeta e ficcionista, além de professor de Literatura Portuguesa na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Pedro Eiras assenta o seu mais recente livro, Substâncias Perigosas (versão resumida de um título quilométrico), numa ideia forte, proclamada com estrépito logo na frase inicial: «Não consigo abrir um livro sem terror: acredito que a literatura mata.»
As cem lições que se seguem, em forma de «pequeno divertimento», mostram que o terror de Eiras está longe de ser apenas metafórico. Ou seja, em tempos de brandura pós-moderna, com as fórmulas de entretenimento fácil a servirem de anestesiante para as massas leitoras, o que ele reivindica é nada menos do que o poder mortal da literatura: «Alguns livros convidam a matar. Outros, ao suicídio. Outros ainda, mais subtis, limitam-se a relativizar a morte – meio caminho para morrer. Todos são substâncias perigosas, como os medicamentos. Só deveriam poder ser comprados com receita médica ou atestado de robustez intelectual.»
Definido o veneno, para o qual não existe antídoto, o «sujeito pensante» enceta uma reflexão em deriva contínua, abarcando quase todas as declinações possíveis do seu tema: não apenas a morte pela escrita (dos suicídios reais provocados pelo Werther, de Goethe, ao castigo para quem lê um livro proibido, ficcionado por Umberto Eco em O Nome da Rosa), mas também a escrita sobre a morte, em Czeslaw Milosz, Bataille, Camus, Sarah Kane, Arthur Conan Doyle, Freud, Séneca, Saramago, Sade, De Quincey, entre outros. Mas o que torna este périplo estimulante é o facto de Eiras assumir o ensaio como género literário infinitamente elástico e absolutamente livre, feito de avanços e recuos, exageros e contradições, erros e surpresas, ironia e jogo, experimentação e risco.
Referindo-se aos textos fragmentários no próprio acto de os escrever, o autor afirma não saber «se são ensaios, ou crónicas, ou monólogos de personagens sem romance». E importará assim tanto classificá-los? Na sua desordem lúdica, um caos que imita a complexidade ramificada do pensamento à solta, eles alinham-se como frutos impuros de uma inteligência desencaminhada e desencaminhante. O livro, este livro, talvez não aspire a matar-nos, talvez ainda não, talvez nunca, mas enquanto leitores «devemos tornar-nos dignos da ameaça».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no número 92 da revista Ler]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges