Uma agenda de catástrofes

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No Céu Não Há Limões
Autor: Sandro William Junqueira
Editora: Caminho
N.º de páginas: 415
ISBN: 978-972-21-2674-8
Ano de publicação: 2014

À semelhança do que acontecia nos dois primeiros romances – O Caderno do Algoz (2009) e Um Piano para Cavalos Altos (2012) –, depressa percebemos que a acção de No Céu Não Há Limões decorre num território puramente literário, de geografia e tempo indeterminados, que Sandro William Junqueira vai construindo, pacientemente, livro a livro. Se em Um Piano… tudo se passava numa cidade cercada por um muro de oito metros de altura, desta vez o cenário ganha a escala de um país dividido como um «pão de quilo cortado ao meio por uma faca de serrilha». Entre o Sul miserável, fustigado em permanência por calamidades naturais, e o Norte, aprazível, próspero, está em curso uma guerra que se disputa na Terra do Meio, o «paralelo» onde os combates decorrem sem sacrifício de civis e o balanço dos mortos adquire o carácter quase abstracto dos resultados desportivos.
Resumir as muitas pontas de um mosaico narrativo extraordinariamente complexo seria tão fastidioso quanto inútil. Digamos apenas que há uma peça de teatro em curso há 29 anos, com um protagonista que não sabe que o é, em torno do qual está montada uma vasta estrutura, cujos alicerces, vigas e alçapões vamos conhecendo aos poucos. No centro deste drama em tempo real, encenado na sombra por um dos homens mais poderosos do Norte (o Ogre, coração fraco mas cabeça de «sinapses rápidas»), está um Padre com problemas de fé e de consciência, marcado pela dúvida e pela incerteza quanto à bondade dos seus actos – como o acordo que leva os habitantes esfomeados do Sul a trocarem o próprio sangue por alimentos. Nos vários planos que a narrativa abarca, há lugar para todo o tipo de intrigas e jogos de bastidores, por onde circulam figuras mais ou menos sinistras, movidas sobre um tabuleiro imaginário como as peças de xadrez das partidas jogadas por telefone entre o Funcionário e o Bispo Auxiliar.
Neste mundo em que as pessoas são nomeadas por algo que as caracteriza ou pela sua função na sociedade (o Raquítico de Cabelo Ralo, a Médica-Cirurgiã, etc.), impera uma visão determinista do tempo. Há profecias que se cumprem, augúrios lidos por uma velha oracular nos restos de um limão espremido, a ideia de que as coisas acontecem porque têm de acontecer e porque os humanos não dominam verdadeiramente o rumo das suas existências («Se forças a corda do destino, ela parte-se. Se a folgas demasiado, ela não prende»). Diante do mistério, «a melhor ferramenta para ajustar a vida é sempre o espanto». Ou seja, a disponibilidade para aceitar os prodígios. E assim «aquilo que é turvo e curvo num segundo, no segundo seguinte pode iluminar-se numa reta».
O estilo continua a ser directo, vertiginoso, afiadíssimo. Frases curtas, muitos verbos, ritmo vivo, palavras sempre escolhidas a dedo («As que dão murros. E as que põem asas nas costas»). Sobre a mais memorável personagem do livro, a Adolescente, que endoidece os homens com os vestidos justos de frutos estampados, conta-se às tantas que a sua menstruação provocou um terramoto. «Era certo, o sangue provocava o sangue. As regras atraíam a desgraça. E as tragédias pareciam cumprir um calendário. Uma agenda de catástrofes. O seu útero e ovários pareciam estar ligados por fios invisíveis, tanto à rocha mais profunda como à constelação mais distante. E falavam uma linguagem comum. Um vocabulário transversal ao cosmos e à terra.» É essa linguagem comum, lírica e visceral, nascida do corpo e da paisagem, que torna a escrita deste autor uma das mais estimulantes da ficção portuguesa contemporânea.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges