Uma bela carapaça vazia

A Arte de Morrer Longe
Autor: Mário de Carvalho
Editora: Caminho
N.º de páginas: 125
ISBN: 978-972-21-2109-5
Ano de publicação: 2010

O arranque de A Arte de Morrer Longe é um exemplo típico da arte narrativa de Mário de Carvalho. Começa com uma frase de efeito – «Na bela e nunca por demais celebrada cidade de Lisboa, urbe das urbes, afamado remanso de brandura, nimbado de zimbórios e palmeiras, a moda das tartarugas exóticas começou um dia a fatigar» – e prossegue com a descrição de um abandono sistemático desses «répteis bojudos» pelos tanques e lagos da cidade, o que logo provoca uma cascata de desequilíbrios ecológicos que culmina, duas páginas mais tarde, num sanguinolento massacre perpetrado por falcões do aeroporto sobre uma população de patos marrecos. A testemunhar esta «cadeia de acontecimentos» não estão os causadores directos (as famílias que se privaram das tartarugas), mas um narrador omnisciente e algo solene, que remata: «É a sina dos homens serem sistematicamente traídos pelos caprichos da realidade. Ainda que advertidos por qualquer Cassandra da marcha das coisas, não deixariam de proceder às cegas, como é próprio da sua natureza, servil a um destino escrito não sei onde.»
Pois neste «cronovelema» deparamos justamente com uma sucessão de «caprichos da realidade» e seus efeitos sobre a vida de um «jovem casal desavindo»: Arnaldo e Bárbara, empregados de escritório que suspeitam de uma infidelidade mútua (inexistente) e também tentam livrar-se (sem grande sucesso) de uma tartaruga, último nó por desatar nas partilhas pré-divórcio. O «pacato quelónio» talvez simbolize a incapacidade de as pessoas assumirem o peso dos seus compromissos, preferindo acabar com os problemas em vez de os resolverem. Mas não se espere uma defesa do casamento em pleno século XXI. Sob a aparência de um conto moral, A Arte de Morrer Longe revela-se, do princípio ao fim, um puro exercício de ironia, com o sarcasmo a esconder o desencanto de um pessimista.
Herdeiro de Laurence Sterne, citado numa das epígrafes, Mário de Carvalho diverte-se – e diverte-nos – ao manipular a seu bel-prazer as convenções romanescas, ora atardando a narrativa em circunlóquios e derivas, ora acelerando-a de repente, ora impondo-lhe um súbito salto, uma suspensão, um tropeço, para logo retomar o rumo original da história, frágil fio que mais adiante de novo se parte, ou enovela, ou desaparece no caos de peripécias que o próprio narrador, embora cheio de manhas e artifícios meta-literários, só com dificuldade controla.
O problema do livro não está na forma, está no conteúdo: a crítica social do consumismo, da chico-espertice, da mediocridade generalizada, da falta de civismo ou da Internet (enquanto escape para ódios e rancores) é certeira mas previsível, já muito vista. Além disso, as personagens principais revelam pouca espessura e as secundárias ainda menos, quando não ficam reduzidas a meros estereótipos (veja-se o polícia Gervásio Escarrapacha, amante da mãe de Arnaldo).
Dito de outro modo, e recuperando a metáfora que atravessa todo o livro, A Arte de Morrer Longe apresenta-nos uma bela carapaça (escrita irrepreensível e a espaços brilhante) mas falta-lhe, lá dentro, uma tartaruga que se veja.

Avaliação: 6,5/10

[Texto publicado no número 91 da revista Ler]



Comentários

2 Responses to “Uma bela carapaça vazia”

  1. José Catarino on Junho 20th, 2010 9:45

    Gostei. Crítica lúcida e imparcial, que vai de encontro às minhas impressões de leitura.. Isto apesar de MC ser dos meus autores favoritos. Escreve como poucos, mas frequentemente parece gozar com a frustração dos leitores ao descobrirem que foram enganados porque não há história. Foi assim em Era bom que…, Sinfonia para dois coronéis… e agora nesta arte de morrer longe. Apesar do brilhantismo de excertos em qualquer uma destas obras, prefiro o MC de Um deus passeando… ou de A sala magenta. Gostos.

  2. Ana Guimarães on Junho 27th, 2010 19:21

    Pois é, eu gosto sempre dos livros do Mário de Carvalho, o escritor português vivo meu preferido. Claro que os Contos da Sétima Esfera, o Caso do Beco das Sardinheiras, A Paixão do Conde de Fróis, Um Deus Passeando… são de excepção. Mas continuo a gostar muito de o ler.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges