Uma bíblia laica

Em frente a uma papelaria do aeroporto de Frankfurt, vários editores portugueses faziam o balanço da maior Feira do Livro do mundo, que decorreu entre 12 e 16 de Outubro. Os mais veteranos lembravam o frenesi de outros tempos com uma certa nostalgia, inquietos com os sinais da crise, traduzida em menos visitantes, menos stands, menos negócios. «Viram o pavilhão dos americanos? No primeiro dia estava às moscas. Eles quase não fizeram compras – só trouxeram agentes, para vender.» Encolhendo os ombros, os editores portugueses admitiam que também compraram pouco: só títulos muito escolhidos, apostas seguras. «Desta vez nem sequer houve um livro da Feira, daqueles que toda a gente fazia loucuras para comprar», resumiu José Prata, responsável pelo catálogo da Lua de Papel e pelo maior sucesso editorial dos últimos anos em Portugal (O Segredo, de Rhonda Byrne, que vendeu quase meio milhão de exemplares).
Enquanto caminhávamos para o nosso gate, arrastando as malas, Prata falou-me então de um livro recente que lhe encheu as medidas. «Não vai vender muito, claro.» Mas se para alguma coisa servem as Rhondas Byrnes, é para isto: permitir, em paralelo, a edição de um calhamaço de 700 páginas que brilha como uma pérola no meio do lixo esotérico. Título: O Livro dos Livros (The Good Book na versão original, lançada em Abril deste ano no Reino Unido). Autor: o filósofo inglês A. C. Grayling, que dá aulas actualmente na Universidade de Londres, depois de ter ensinado em Oxford, e é visto como o menos virulento dos intelectuais que compõem uma pouco santa trindade de ateus militantes em terras de Sua Majestade – os outros dois, escusado será dizer, são Richard Dawkins e Christopher Hitchens. «Quando o livro sair, dá-lhe uma olhadela, porque acho que vais gostar», avisou o Prata, já na zona de embarque. Assim que foi publicado, em meados de Novembro, dei-lhe a prometida olhadela. Aliás, várias olhadelas. E, de facto, gostei do que li.

O conceito desta obra imensa, fruto de um trabalho de três décadas, é tão simples quanto poderoso: fazer uma espécie de Bíblia, com uma estrutura semelhante, mas em que Deus está ausente. Tal como a original, esta bíblia é composta por vários livros (Génesis, Parábolas, Provérbios, Epístolas, etc.), divididos em capítulos e versículos, mas com fontes seculares, em vez de religiosas. O processo de construção é o mesmo – a colagem de textos de diferentes origens, que criam uma genealogia, uma doutrina e uma ética para a vida humana – só que muito mais abrangente. A ideia surgiu a Grayling quando ainda era estudante universitário e se apercebeu de que os editores da Bíblia, ao escolherem apenas fontes religiosas, estavam implicitamente a renunciar à riquíssima tradição humanista dos gregos e romanos, alguma da qual estava ao seu alcance. No Livro dos Livros, o que Grayling faz é justamente uma compilação dessa outra sabedoria, a que foi excluída da matriz judaico-cristã, num arco que vai dos filósofos pré-socráticos ao século XIX e reúne citações – nunca atribuídas directamente – de pensadores e poetas como Plutarco, Epicteto, Xenofonte, Confúcio, Cícero, Rumi, Petrarca, Hume, D’Alembert, Goethe, Kant, Darwin, Emerson ou Rimbaud. Nas palavras de Grayling, que começou a ler Platão aos 12 anos e acredita que toda a gente pode compreender conceitos filosóficos (desde que devidamente explicados), esta obra é «uma destilação do melhor que foi pensado e dito por pessoas que experimentaram realmente o que é viver, e reflectiram sobre essa experiência».
A principal vantagem de uma estrutura semelhante à da Bíblia está na possibilidade de abrir o livro aleatoriamente e ler versículos soltos. É precisamente isso que faço agora. Livro das Lamentações, Capítulo 10, versículo 28: «Se as crianças viessem ao mundo através de um acto puramente racional, poderia a raça humana ter continuado até hoje?». Livro dos Provérbios, Capítulo 43, versículo 12: «Ao crime bem-sucedido chamamos virtude.» Livro das Epístolas, 5.ª Epístola, primeiro versículo: «O dia, se bem aproveitado, dá para tudo.» Dá para tudo, sim. Até para uma pessoa se perder no labirinto de sabedoria desta obra admirável.

[Texto publicado no n.º 108 da revista Ler]



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