Uma boca de sombras

enredos

Enredos
Autor: Rui Nunes
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 105
ISBN: 978-989-641-422-1
Ano de publicação: 2014

É impossível ler hoje a reedição de Enredos, livro publicado por Rui Nunes em 1987 (na desaparecida editora Rolim), sem ter presente que o escritor decidiu concluir a sua obra em 2013, com Armadilha. Não são raros os casos de autores que anunciam supostas retiradas, desmentidas meses depois – seja por rebate de consciência, seja por incapacidade de dizer não à avidez da máquina editorial. Dificilmente isso acontecerá com Rui Nunes, porque para a sua decisão contribuíram duas razões de força maior: um estado de quase cegueira que lhe impossibilita o próprio acto da escrita; e a consciência de que a sua linguagem atingiu um «momento final». Ou seja, um lugar a partir do qual já não é possível ir mais longe.
Podemos entrever esse lugar de absoluta rasura em Barro (Relógio d’Água, 2012), um texto que desconfia da capacidade que as palavras têm de dizer o mundo («ligar uma palavra a outra é já uma traição»). Em livros anteriores, Rui Nunes vinha sabotando os mecanismos e regras ficcionais, mas esse movimento de implosão narrativa atinge aqui uma espécie de apogeu. Por entre fragmentos e imagens que constroem o seu próprio sentido, numa paisagem rarefeita, o escritor inventa «uma língua de gumes», por vezes «reduzida a um sopro», muito mais próxima da poesia (há um diálogo permanente com Paul Celan) do que daquilo a que se convencionou chamar uma história. No fundo, assistimos a um espantoso apocalipse («talvez o fim de qualquer escrita seja a sua destruição»), uma ‘terra devastada’ que é ao mesmo tempo, na sua opacidade, um espelho onde o escritor se revela inteiro: «Há livros que acompanham uma vida: separam-se do seu autor e esquecem-no. Outros, confundem-se com quem os escreveu: são um corpo, uma dor, uma doença, um modo de morrer.» Paisagem que se prolonga, de forma talvez ainda mais radical, em Armadilha («acrescentamos incompletude à incompletude»).
Se olharmos para Enredos a partir dos livros finais, não só reconhecemos a voz de Rui Nunes – um tom despojado único na literatura portuguesa – como o início do tal processo de implosão dos códigos narrativos. Lá por baixo, o rastilho já estava aceso. Mas o romance (se é que faz sentido denominar assim uma obra tão inclassificável) ainda guarda alguma da ordem que se espera de um romance clássico: há personagens, diálogos, continuidade cronológica. Mesmo se essa ordem acaba por ser continuamente posta à prova, desviada, sujeita a tratos de polé. Na primeira parte, «Laços Familiares», assistimos às crises e dilemas de um jovem após a morte do pai (cuja decadência física, em contraste com o despertar sexual do filho, inspira as páginas mais admiráveis do livro). A segunda parte, «Laços Mundanos», é um mergulho no bas fond da prostituição lisboeta, num registo de sordidez onírica, como que ditado por «uma boca de sombra». A atmosfera saturada do livro, em que Portugal impõe o seu peso de pátria putrefacta, conduz-nos por fim à terceira parte, «Laços Patrióticos», que é talvez o mais devastador retrato alguma vez feito de Salazar.
O «ditador» senil dá couves aos coelhos, «verte as águas onde lhe apraz», cai da cadeira, e encena diante de nós o espectáculo da sua decadência, que tem tanto de burlesco (quando se põe de gatas na carpete, à procura de uma imaginária rã) como de trágico. No último parágrafo, metáfora cruel da podridão, sobre o seu corpo morto pairam varejeiras. São talvez as mesmas moscas que pousam nas feridas da criança que remexe com um pau o lodo no fundo de uma piscina, imagem central de Armadilha, escrito um quarto de século mais tarde.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do Expresso]



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