Uma bomba com retardador

Autismo
Autor: Valério Romão
Editora: Abysmo
N.º de páginas: 353
ISBN: 978-989-97448-6-8
Ano de publicação: 2012

À porta das urgências, os pais de Henrique, menino de seis anos que foi atropelado, desesperam para saber notícias do filho. Estará vivo? Em coma? Muito ferido? À beira da morte? Rogério e Marta manifestam a sua aflição, revoltam-se, resignam-se, revoltam-se outra vez, mas não conseguem saber o que se passa. Por muito que mendiguem o acesso ao interior do hospital (ou, no mínimo, a esmola de um boletim clínico sumário), deparam sempre com uma barreira invisível, um muro de burocracia e indiferença. Eles estão de fora e há uma força qualquer que os impede de entrar, de se aproximarem da verdade. É uma situação puramente kafkiana, ao mesmo tempo absurda e verosímil, um pesadelo durante o qual nada acontece a não ser um crescendo de angústia e inquietação, partilhado pelos pais de Marta – quatro adultos impotentes face a um intercomunicador mudo, à intransigência dos seguranças e a uma lógica administrativa que os ultrapassa.
Esta situação-limite constitui o eixo central de Autismo (editado com o habitual esmero gráfico da Abysmo e belas ilustrações de Alex Gozblau), romance fulgurante que junta desde já o nome de Valério Romão (n. 1974) ao dos melhores valores da literatura portuguesa sub-40. O que torna o livro devastador não é apenas a descrição da insuportável agonia da espera, um estado de sofrimento sem saída, suspenso, mantido com mestria pelo narrador durante dezenas de páginas. O que o torna devastador é a forma como esse limbo se transforma na metáfora do autismo de Henrique, a verdadeira tragédia que atingiu a família uns anos antes. Em capítulos intercalados na narrativa principal, vai sendo contada essa outra história, feita de sucessivas etapas de surpresa, negação, falsas esperanças e desilusões. A partir do momento em que assumem a natureza «especial» do filho, atribuindo finalmente um nome ao problema, os pais lutam com as armas ao seu alcance, empenham-se nos programas de estimulação sugeridos pelos médicos (pouco mais eficazes, na prática, do que as metodologias estapafúrdias dos charlatães), criam novas rotinas e até abdicam do trabalho (Marta), mas os resultados depressa se esfumam.
De início, o romance tem um foco mais alargado, recuando aos momentos de felicidade do casal, logo após o nascimento de Henrique, quando tudo ainda parecia «normal», e arriscando mesmo o retrato lúcido de uma geração consciente dos seus impasses (embora se veja como «o reduto e o enclave derradeiros no qual uma longa linhagem chamada civilização ocidental acabava o seu demorado processo de decantação», sabe que é formada por «aqueles que ninguém coroaria», meras «borras da história», uma «escória que brilha»). À medida que a doença progride, fechando sobre si mesma esta «família de dois e meio», o próprio romance afunila, ficando cada vez mais cru, mais duro, no osso (reduzido a diálogos de enorme violência emocional), cada vez mais claustrofóbico, quase irrespirável. «O Henrique e o autismo ocupam a totalidade da vida», queixa-se Rogério. «Foi o autismo que acabou connosco (…), que nos destroçou como casal até este ponto de aparente não-retorno. (…) É uma bomba com retardador. E agora explodiu.» Se Marta parece conformada com a dimensão dos estragos e a necessidade de seguir em frente, tendo o bem-estar possível de Henrique como única meta, Rogério não se resigna diante de tamanhas perdas. Das ambíguas páginas finais (em que se sugere uma ignomínia) emana então a luz negra que dá um sentido terrível à espera no hospital e assombrará o leitor muito depois de terminada a leitura.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 115 da revista Ler]



Comentários

Comments are closed.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges