Uma catástrofe silenciosa

Do Natural – Um Poema Elementar
Autor: W. G. Sebald
Título original: Nach der Natur. Ein Elementargedicht
Tradução: Telma Costa
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 107
ISBN: 978-989-722-025-8
Ano de publicação: 2012

No nosso país, W. G. Sebald tem vindo a ser editado no sentido inverso da sua publicação original. A Austerlitz, o último dos romances e obra-prima do escritor alemão (lançado pela Teorema em 2004), foram sucedendo-se os livros anteriores, numa espécie de progressão às arrecuas. Não espanta por isso que só agora nos chegue o seu trabalho literário mais antigo: Do Natural (Nach der Natur), de 1988 – primeiro volume de uma nova colecção que a Quetzal vai dedicar ao escritor germânico, precocemente desaparecido num acidente de automóvel em Dezembro de 2001, aos 57 anos, no auge das suas capacidades criativas. Na verdade, a ordem cronológica pouco importa. Saúde-se antes o facto de finalmente ficar completo o arco essencial de uma obra importantíssima, das mais originais e poderosas da literatura europeia contemporânea.
Definido por Sebald como um «longo poema em prosa», este é um texto estranho, um tríptico que convoca, quase isoladamente (não fora algumas subtis e subterrâneas conexões entre elas), três figuras muito distanciadas no tempo, mas igualmente sujeitas ao «fardo da melancolia»: Matthaeus Grünewald, pintor de retábulos do século XVI; Georg Wilhelm Steller, um explorador e naturalista do século XVIII; e o próprio Sebald, que escreve «entre as ruínas», enquanto evoca e relaciona vários episódios da sua vida.
Embora o texto se disponha em versos livres, a linguagem é efectivamente a da prosa: uma prosa lenta, complexa, meticulosa, cheia de anfractuosidades e ressonâncias, desdobrando-se em frases buriladíssimas que se propagam como ondas, com as orações a encaixarem-se umas nas outras de forma perfeita. O lirismo surge nos contrastes rítmicos, nas imagens inesperadas, nos detalhes muito nítidos que assumem de repente um carácter revelador. A escrita parece capaz de abranger tudo – paisagens, acontecimentos históricos, ideias – na formulação exacta de um achado verbal. Uma característica que encontramos também nos outros livros de Sebald, mesmo nos mais assumidamente ficcionais, pelo que não será talvez descabido pensar toda a obra deste autor como um majestoso «poema em prosa» que procura, de vários modos, resgatar a memória de existências perdidas (ou em risco de se perderem) sob o imenso poder destrutivo do esquecimento.
De Grünewald sabe-se pouco, a sua biografia é esquiva, por isso Sebald procura-o nos seus quadros, onde por vezes se figura em autorretratos. No famoso retábulo de Isenheim, representando as tentações de Santo Antão, descobre uma espécie de apocalipse humano, uma tenebrosa «imagem da nossa louca presença / à superfície da Terra», um retrato da «falta de equilíbrio da natureza» que logo «desfaz o que acaba de fazer». No pintor de grotescas crucificações de Cristo, Sebald encontra «a construção de uma metafísica», uma visão extrema do «desgaste» que «acabará por corroer até as pedras». Já na viagem de Steller, que acompanhou Vitus Bering na exploração dos confins siberianos, surge um confronto com os limites da experiência humana que torna clara «a diferença entre natureza e sociedade». Há, no mundo natural, uma beleza «inapreensível» que Sebald, nascido sob o signo do «frio planeta Saturno», cedo intuiu, quando em criança, à janela de casa, se punha a «imaginar / uma catástrofe silenciosa / que chega ao observador sem aviso». Nele mesmo, como em Grünewald e Steller, Sebald assinala um desamparo sem consolo. Por muito que emane uma «luz rara» dos versos de Hölderlin, o «desvario vai até onde / alcança o coração».

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



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