Uma coça bem dada

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Pleno Emprego
Autor: Miguel Cardoso
Editora: Douda Correria
N.º de páginas: 21
ISBN: 978-989-20-4383-8
Ano de publicação: 2013

Não é fácil construir um discurso sobre a poesia de Miguel Cardoso porque ela nunca abandona a sua condição de objecto em fuga, de coisa que se ergue assim, de repente, do nada, com uma energia cinética espantosa, e nos leva pela longa escadaria dos versos, ou pelos labirintos da prosa (como neste caso), sem que saibamos muito bem o que é isto afinal, ou para onde se dirige a imparável torrente de palavras, ideias e imagens.
Os seus poemas – quase sempre longos, feitos de acumulações, derivas, apartes, coloquialismos, interrupções – são paredes verbais a ir de encontro ao leitor para o derrubar. São uma coisa física. Um encontrão valente. Lê-los é levar porrada, é não conseguir agachar-se, à la Álvaro de Campos, «para fora da possibilidade do soco» (e curiosamente talvez ninguém se aproxime tanto da energia do Poema em Linha Recta, hoje, como Miguel Cardoso).
Pleno Emprego, um texto que começou por ser uma instalação sonora na casa de banho do bar Purex, é mais uma coça bem dada nos que se atreverem a entrar no seu torvelinho. O lirismo nasce do real em catadupa, esmiuçado como quem não quer a coisa – mas afinal quer, por muito que se desconverse. Por baixo e por cima do alarido está a miséria, o desemprego, o pérfido minguar das vidas e dos horizontes. Mesmo quando vai por partes, e lhes dá a volta, é sempre disso que o poeta fala: «Sou pelos plenos pulmões, e por esvaziá-los até ao fim. (…) Sou pelo pleno emprego das razões, mas nunca das certas. Das revoluções, mas daquelas que, como aquele livro de poemas que andas há semanas a ler em voz alta no autocarro, podes levar a casa de amigos e de estranhos a qualquer hora».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges