Uma deriva controlada

Os selos da Lituânia
Autor: Amadeu Baptista
Editora: &Etc.
N.º de páginas: 76
ISBN: 978-989-8150-10-3
Ano de publicação: 2009

Amadeu Baptista é um caso singular na literatura portuguesa. Embora seja um autor prolixo, a sua obra tem mantido uma assinalável constância qualitativa, como se pode verificar em Antecedentes Criminais (Antologia Pessoal 1982-2007), que as Quasi editaram há menos de dois anos. De então para cá, Baptista lançou nove títulos (se não é recorde, anda lá perto), o que se explica em parte pela urgência expressiva de um poeta torrencial por natureza, e em parte pelas dificuldades económicas que o atormentam. Desempregado de longa duração, tem feito da vitória sistemática em concursos literários uma espécie de actividade profissional, ao ponto de poder dizer-se que vive literalmente da poesia (se não é caso único, anda lá perto).
Em Os selos da Lituânia, Baptista recorre ao poema longo como forma de organizar recordações dispersas da infância e da adolescência, num «ajuste de contas com o passado» que deixa atrás de si um denso rasto de melancolia. O ponto de partida é quase sempre um momento forte, traumático ou epifânico: uma ida à praia («para ver do mar o fundo»), o primeiro dia de aulas, o velório da avó que a cidade em breve eclipsará, uma carga policial vista de longe (apertando a mão da ama assustada), visões líricas do mundo natural (um bosque, um pomar de limoeiros), os castigos corporais, a descoberta do sexo, retratos vívidos de familiares próximos, etc.
À medida que avança através das sombras, tanto do espaço como do tempo, o discurso assume a forma de uma deriva controlada, em que o sujeito poético se entrega às marés da memória, mas sem nunca perder o pé. Esta é uma poesia da contemplação e do desamparo face às arestas cortantes do mundo, um mundo em que o «irreal mostrava-se, de súbito,/ a única custódia possível para os olhos». Baptista acredita no poder de resgate da poesia, esse «denso» e «inquestionável» mistério que, entre outras coisas, «ampliava/ os recantos do sótão», nessa casa de família em que agora se sobrepõem, coalescendo, outras casas – com os seus próprios instantes, e silhuetas, e gestos perdidos. A crença no poder da poesia, porém, não o cega para os aspectos mais brutais da realidade, antes lhe provoca a «angústia de quem sabe/ que nenhuma palavra é redentora/ e um verso ou uma frase não nos salva/ do que quer que seja». O último poema, com os seus «traços de leveza» vagamente erótica e juvenil, deixa ainda assim uma esperança na vertigem dos sentidos como uma forma possível de sobrevivência.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges