Uma haste de assombro

A Mão na Água que Corre
Autor: José Manuel de Vasconcelos
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 111
ISBN: 978-972-37-1581-1
Ano de publicação: 2011

Ensaísta e tradutor, José Manuel de Vasconcelos é também um poeta bissexto: publicou apenas quatro livros entre 1982 e 2009 (dois na Vega, um na Ulmeiro e outro na Assírio & Alvim, neste momento fora de mercado). Em A Mão na Água que Corre oferece-nos um conjunto de poemas de escrita muito cuidada, quase todos de natureza descritiva ou contemplativa, marcados por dois pólos temáticos particularmente fortes: de um lado, o amor (enquanto aspiração, epifania ou memória); do outro, uma melancolia difusa que funciona como ecrã entre o sujeito poético e o mundo.
Esta é uma poesia da observação e do espanto («todo o instante seria uma haste de assombro»), atravessada por um «límpido lirismo» que acaba por se tornar cansativo. Vasconcelos procura na linguagem uma forma de música, mas esta melopeia, se por vezes é envolvente e entusiasma, na maior parte dos casos redunda num registo demasiado brando e arrendondado, uma beleza neutra que logo se dissolve, tão amena quanto vaga, alheia a qualquer sobressalto exterior. Num dos poemas, há uma referência aos olhos como estando «ausentes dos nervos do mundo» e talvez esteja aí o problema, nesse solipsismo de um «pranto sem corpo», sinalizando crepúsculos, ausências e angústias.
Num universo fechado e por vezes claustrofóbico, Vasconcelos dialoga com outros poetas — Ramos Rosa, Eliot, Sophia, Fiama, Alejandra Pizarnik, Umberto Saba (que traduziu) —, com obras pictóricas (Correggio, Rubens, Van Gogh, Christopher Pratt, Gerardo Rueda, Lourdes Castro) e com a mitologia grega. Mas os seus melhores poemas acabam por ser os mais irónicos. Como aquele que descreve a «entediante eternidade» da cabeça de Diogo Alves (o assassino do Aqueduto), presa num frasco de formol «cor de pânico». Ou aquele outro que atribui, à pobre Anne Frank, um confinamento similar: «Anne Frank foi sempre / um pequeno peixe num aquário, / primeiro às voltas com um impiedoso anzol, / agora olhada através dos grossos vidros / por turistas desengonçados».

Avaliação: 6,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

One Response to “Uma haste de assombro”

  1. Olinda Melo on Abril 21st, 2011 12:18

    Talvez não tenha mal esta postura de observação e espanto, digamos, se a interpretarmos num plano filosófico. Infeliz daquele que não se espanta todos os dias com o que se passa à sua volta… Sobraria a ‘melopeia’ e o ‘límpido lirismo’.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges