Uma indecifrável irrealidade

O Murmúrio do Mundo
Autor: Almeida Faria
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 146
ISBN: 978-989-671-111-5
Ano de publicação: 2012

No final de 2006, Almeida Faria regressou de uma visita à Índia – organizada pelo Centro Nacional de Cultura – com «um bloco confusamente escrevinhado», em que registou as suas experiências e observações. Passados cinco anos, o escritor bissexto publica finalmente O Murmúrio do Mundo, notável relato dessa viagem partilhada com Bárbara Assis Pacheco, cujas belas ilustrações criam uma espécie de narrativa visual que se intromete na narrativa literária e a complementa. A ideia era recuperar a «memória acumulada daqueles que antes de nós ali passaram», sobretudo dos portugueses que há quatro séculos se embriagaram com os «fumos da Índia», mas depressa o escritor se deixou fascinar pelas outras «mil faces» de um país infinitamente complexo, onde «a realidade é tanto mais provável quanto mais inverosímil». Se Índias há muitas e «cada um vê a sua», a de Almeida Faria começa por ser a Índia do antigo esplendor colonial, de que restam «uns vestígios vagos em estratos do tempo sobrepostos como anéis», mas termina sendo a Índia real, com a sua «indecifrável irrealidade».
Ao chegar à gigantesca Bombaim, a meio da noite, exausto após longa viagem aérea desde Frankfurt (ainda assim incomensuravelmente menos «áspera» do que a travessia por mar, durante meses, a que eram sujeitos os «homens das armadas de outrora»), Almeida Faria depara-se com a estranheza de um mundo desconhecido, que a hora tardia torna ainda mais estranho: «Num misto de curiosidade e de cansaço, adivinho em vez de ver, a fadiga alerta-me os sentidos, os ouvidos tornam-se mais atentos, as narinas mais sensíveis, reparo melhor em cada ser, em cada som ou cheiro, sem saber se fico mais consciente de mim mesmo ou se o espírito do lugar toma conta de mim e me dissolvo nele.» É verdadeiramente de dissolução que se trata aqui. Dissolução na paisagem e na História, tendo como fio condutor o que ficou de mais sólido da presença portuguesa no Oriente: o seu património de monumentos, as suas igrejas e fortalezas.
Enquanto deambula por Goa e Cochim, Almeida Faria evoca a origem e etimologia das cidades, explica como o hinduísmo e o cristianismo se contaminaram, demora-se na descrição de rituais religiosos e sobretudo dá-nos a ver, com extraordinária clareza, as maravilhas arquitectónicas que lhe vão sendo reveladas – como aquele «teto altíssimo a que a nudez da nave vazia dava a ilusão de ser mais alto ainda». A erudição torna-se por vezes cansativa, mas o autor logo interrompe o afã de tudo explicar (em detalhe, sim, mas sem os exageros do «mendespintismo»), permitindo-se alguns desabafos e até uma brilhante fantasmagoria, durante a qual traz ao presente a figura de um obscuro pintor flamengo, Michiel Sweerts, nascido «no ano dos três cometas» (1618) e morto em Goa (1664) depois de uma vida aventurosa, aqui resumida nalgumas das páginas mais entusiasmantes do livro.
A dado passo, Almeida Faria enumera lugares com «nomes de pura música»: Pangim, Banguelim, Bicholim, Morombim, Panelim, entre outras que acabam em ‘im’. Mas pura música é também a sua prosa, que alia uma trabalhada fluidez a uma notável precisão vocabular (no caos do trânsito, por exemplo, identifica um «frenesim buzinante»; na fachada austera de uma igreja, «nódoas negras de bolor»). Refira-se ainda que o texto vai sendo intercalado com citações não atribuídas, em itálico, tanto de cronistas portugueses dos séculos XVI e XVII como de Nietzsche, Ingmar Bergman, Kierkegaard, J. M. Coetzee ou de heterónimos pessoanos (Alexander Search, Álvaro de Campos, Bernardo Soares).

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 111 da revista Ler]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges