Uma infância rural

Trás-os-Montes
Autor: Tiago Patrício
Editora: Gradiva
N.º de páginas: 159
ISBN: 978-898-616-478-2
Ano de publicação: 2012

Com o seu primeiro romance, Trás-os-Montes, Tiago Patrício (n. 1979) ganhou a edição de 2011 do Prémio Agustina Bessa-Luís e, desde já, um lugar de destaque na nova geração de ficcionistas portugueses. O que mais surpreende neste livro, para além da arquitectura narrativa perfeita, é a solidez estilística e a capacidade de recuperar, com extrema nitidez, a imagem de um certo Portugal à beira da mudança, imediatamente antes da integração europeia. Neste mundo rural fechado, os rebanhos ainda atravessam as ruas no seu percurso diário «entre os currais e os lameiros», a luz eléctrica é um luxo recente, os telefones em casa uma raridade, mas já se anuncia a abertura trazida em breve pelas auto-estradas (pagas pelos fundos comunitários) na morte simbólica do comboio a carvão.
Contra este pano de fundo social, marcado pela emigração, pelo peso da igreja, e por uma série de atavismos culturais, Tiago Patrício conduz-nos desassombradamente pelos labirintos da infância, esse tempo de experimentação e incerteza, de espanto e desamparo, de fascínio pelo que é proibido (a violência física, os primeiros cigarros, as revistas pornográficas) e resignação contrafeita diante do poder autoritário dos adultos. No centro do torvelinho que conduz à fatídica «última semana de aulas» – com o seu facto quase trágico (cujas consequências levam, depois, a um acontecimento verdadeiramente fatal) – está Teodoro, um rapaz ensimesmado, com «memória excessiva», tão «permeável» que corre o risco de se «dissolver». Ele está «quase sempre atrasado em relação às coisas», exposto à desordem de uma realidade que vai perdendo a simetria original e sujeito à humilhação de perceber que não há «resguardo» materno ou escolar que lhe valha. Através dele e dos seus companheiros mais desenvoltos (Edgar, Oscar e Raquel), vemos o território infantil desenhar-se com sombras, vertigem e crueldade. Não se chega a saber o que acontece a estas crianças depois de crescerem, mas intuímos que a «culpa demasiado grande» caída sobre uma delas é fardo que todas carregarão a vida inteira.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 115 da revista Ler]



Comentários

2 Responses to “Uma infância rural”

  1. jaff on Outubro 15th, 2012 22:12

    É impressionante como o JMS muda de opinião acerca de um autor. Ainda há 2 anos, se tanto, a sua crítica acerca do que este jovem escrevia não era assim tão abonatória, digamos. Foi por ele ter sido premiado com este prémio que alterou substancialmente a sua opinião, foi? Já sei, vai dizer-me que são obras distintas, etc, etc., e que a si, como, curiosamente, com outra figura distinta da nossa praça, pagam-lhe para pensar por si próprio, blablablá…

  2. José Mário Silva on Outubro 16th, 2012 6:17

    Deixe-me ver se percebo. Está a sugerir que a opinião sobre um escritor devia ficar cristalizada? Uma coisa lhe garanto: o prémio não tem nada a ver com a minha apreciação, até porque em 2008, três anos antes do Agustina, fiz parte do júri que deu ao TP o prémio dos Jovens Criadores do CPAI. Quanto ao resto, sim, penso por mim próprio, blábláblá.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges