Uma metamorfose falhada

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Traição
Autor: Luís Mário Lopes
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 133
ISBN: 978-989-671-196-2
Ano de publicação: 2013

Na sexta cena de Traição – o texto com que Luís Mário Lopes venceu, em 2011, o Prémio Luso-Brasileiro de Dramaturgia António José da Silva – encontramos uma possível chave para o estranho jogo identitário que atravessa esta peça teatral. Num monólogo relativamente longo, o protagonista recorda um pesadelo que lhe atormentou a infância. No sonho, uma borboleta escapa-se da caixa dos bichos-da-seda e esconde-se atrás da estante, onde fica encurralada e a bater as asas, em pânico. «Os livros mal arrumados tinham servido de armadilha. Ouvia a borboleta assustada sem conseguir sair. Sentia-a. Sentia-a mas não a via… (…) então muito depressa, de uma vez só, empurrei os livros até ao fundo (…) Só um esmigalhar qualquer. Depois nada…» Acordada, a criança esperara que os casulos se abrissem e de lá brotassem «borboletas lindas», mas em vez disso saíram «uma espécie de moscas gigantes e brancas». Na continuação do sonho, é uma dessas que lhe entra pela boca e começa a descer pela garganta, sufocando-o. Longe de ser original, a metáfora associa uma ameaça à ideia de mudança, um processo que nem sempre nos transforma para melhor, às vezes muito pelo contrário.
O objecto da metamorfose chama-se Pedro, um astrofísico que deu o nome da mulher a uma estrela de neutrões e que não sabe se há-de aceitar o cargo de director numa instituição científica, à qual o governo pretende adjudicar o desenvolvimento de um sórdido Projecto de Vigilância Global – em que satélites seriam equipados com «câmaras poderosíssimas capazes de registar tudo o que toda a gente faz a toda a hora», dentro e fora de casa. O natural conflito interior do protagonista dá origem a um desdobramento, com a aparição súbita de um Pedro 2 que é um avatar daquilo que o Pedro original pode vir a ser, se abdicar dos seus princípios.
Esta enésima variação sobre o tema do duplo estabelece a principal linha de conflito da peça. Numa nota inicial, junto à indicação das idades aproximadas das personagens, o autor sublinha que «os actores que representam Pedro 1 e Pedro 2 devem ser apenas vagamente parecidos». O que aterroriza Pedro 1 é perceber que Pedro 2 não é sequer um sósia, mas toda a gente o aceita sem reservas ou surpresas quando ele lhe rouba a vida e o substitui em todos os planos da existência, do profissional ao amoroso. A dúvida instala-se: «Será que o estranho finge assim tão bem… ou afinal ninguém te conhece, ninguém te conhece verdadeiramente, e estás completamente só?»
Luís Mário Lopes tentou fazer uma peça com implicações filosóficas a partir de um enredo quase plano, em que as personagens nunca chegam a ganhar espessura ou densidade. Inevitavelmente, falhou. Os diálogos são fluidos, há savoir faire dramatúrgico, mas falta coesão ao todo. As partes não encaixam bem umas nas outras. Pior: ficam questões por explicar (a origem de Pedro 2 e a natureza da sua relação com Mr. World, por exemplo) e outras mal resolvidas (os dilemas de Pedro 1; o derradeiro ajuste de contas). Em palco, trabalhado por um encenador capaz, pode ser que o texto até funcione. No papel, deixa muito a desejar.

Avaliação: 5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges