Uma mosca entre vespas

Eu e Tu
Autor: Niccolò Ammaniti
Título original: Io e Te
Tradução: José J. C. Serra
Editora: Bertrand
N.º de páginas: 174
ISBN: 978-972-25-2340-0
Ano de publicação: 2011

Aos 14 anos, Lorenzo é um rapaz com as dificuldades de integração social típicas dos adolescentes. Diz o psicólogo que ele sofre de «perturbação narcísica» e incapacidade «de sentir empatia pelos outros». Na escola, é uma «mosca» rodeada de «vespas». Solução: imita as vespas, finge ser como elas. À mãe, preocupada com o seu isolamento, dá a entender que um grupo de colegas o convidou para uma semana de férias na neve. A mentira ganha vida própria e Lorenzo decide levá-la às últimas consequências: simula a partida para Cortina, fecha-se na cave do prédio (com muitas latas de atum, PlayStation e romances de Stephen King), inventando depois relatórios sobre esqui e montanhas nas curtas chamadas de telemóvel para a progenitora. O idílio solipsista é interrompido pela chegada imprevista de Olivia, uma meia-irmã de 23 anos que Lorenzo mal conhece. Com ela vêm problemas a sério, questões de vida ou morte, dilemas que relativizam as angústias do adolescente, forçam-no a ultrapassar bloqueios, ajudam-no a crescer.
Escrito num estilo seco, directo e sem grandes requintes estilísticos, Eu e Tu é um romance de formação com estrutura simples mas muito eficaz. De leitura fácil (quase light, apesar das sombras que se abatem sobre a história), tem a lógica funcional dos best-sellers. Os picos dramáticos, os momentos de pausa, as revelações, os conflitos, as surpresas – está tudo onde se esperaria que estivesse. É tentador, aliás, imaginar estes capítulos transformados em cenas de um filme. Não por acaso, já foi anunciada para breve a adaptação cinematográfica do livro, marcando o regresso ao cinema de Bernardo Bertolucci, ausente dos estúdios desde 2003.

Avaliação: 6/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges