Uma música selvagem

Um Piano para Cavalos Altos
Autor: Sandro William Junqueira
Editora: Caminho
N.º de páginas: 360
ISBN: 978-972-21-2466-9
Ano de publicação: 2012

O segundo romance de Sandro William Junqueira decorre numa Cidade arquetípica, separada da Floresta – a Natureza em estado bruto – por um Muro de betão com oito metros de altura. No interior, além da Torre Governamental e da Fábrica com duas enormes chaminés (uma para cada ala: a sul, onde se fabricam empadas de carne; a norte, onde se incineram os mortos), existem zonas residenciais separadas por cores e arame farpado, um «arco-íris urbano» que é uma espécie de apartheid levado às últimas consequências. No cimo desta sociedade distópica, erguida com «organizada aspereza» depois de um mítico Grande Desastre, está o Ministro Calvo, chefe de um Governo que legisla tudo – até a música – de forma a alcançar um efectivo controlo do medo colectivo (visto como «motor indispensável à civilização»). A maquinaria social pode parecer blindada, quase perfeita na sua eficácia fascistóide, mas também ela tem pontos frágeis e elos mais fracos, por onde a revolta se insinua.
Algures entre George Orwell e Gonçalo M. Tavares, Sandro W. Junqueira consegue manter um ritmo narrativo muito vivo, muito rápido, voraz, com a sua escrita feita de capítulos curtos, frases sincopadas e ideias fortes. Abundam imagens de uma crueza desconcertante, sobretudo as de cariz sexual. E tropeçamos, quase página a página, em aforismos: «O tempo e a dor não são cordiais; são insolentes»; «o coração é uma máquina de costura» porque «cose as pessoas umas às outras»; etc. Às duas partes em que se divide o livro (uma «sonata de inverno», a que se segue um «concerto de verão») correspondem dez gymnopédies. Na verdade, a música atravessa a narrativa de forma fulgurante, tal como atravessa as paredes da Cidade (onde «teima em vencer a arquitectura»). E se em muitos casos adormece as consciências, outras vezes envenena «o cão de guarda da razão» com a sua luz selvagem. Ela está em tudo, da faca na cozinha – «afinada em dó menor» – aos dedos do rapazinho literalmente amarrado a um piano, cuja apresentação em público, diante do ditador, coincide com o clímax dramático para o qual convergem os muitos fios desta história de ovelhas com a força dos lobos, lobos com a fraqueza das ovelhas, e lobos que simplesmente se devoram uns aos outros.
Vertiginoso, excessivo, elíptico, complexo, violento, divertido, onírico, expansivo, inteligente, visceral, cheio de som e fúria, barroco tanto na forma como no estilo, Um Piano para Cavalos Altos é um dos romances mais poderosos, intensos e arrebatadores que a literatura portuguesa nos deu nos últimos anos.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no n.º 112 da revista Ler]



Comentários

Comments are closed.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges