Uma súmula nada intempestiva

Por Ti
Autor: Ian McEwan
Título original: For You
Tradução: Maria de Fátima Carmo
Editora: Gradiva
N.º de páginas: 65
ISBN: 978-989-616-307-5
Ano de publicação: 2009

Charles Frieth julga-se um génio mas é só um canalha. Compositor no auge da fama, prestes a estrear uma nova peça sinfónica («súmula intempestiva» da obra anterior), encontra-se numa encruzilhada. Sexagenário, a energia juvenil esfumou-se. O declínio está próximo; «as capacidades moribundas». Espera-o, e ele tem consciência disso, «a longa descida até à inutilidade». Mas enquanto lhe sobram forças não deixa de se agarrar ao seu poder, de um egotismo sem limites, amarfanhando todos os que o rodeiam: a mulher, Antonia, abandonada à sua doença e à sua infelicidade; Robin, o secretário submisso e pau para toda a obra; Simon, o médico de Antonia, presumível amante dela e catalizador de um ciúme que é só sentido de posse; e Joan, alvo do seu apetite sexual, jovem trompista tão descartável como as outras raparigas da orquestra, a quem ele também prometeu «um solo de trinta e dois compassos». A única personagem que não se apercebe da verdadeira natureza de Charles é Maria, a governanta polaca, que olha para ele como para um deus e imagina nas suas palavras sinais de um amor que não está lá – mas que há-de ser o rastilho para a tragédia e para a queda, patética e irónica, do Don Giovanni de pacotilha.
Foi com este material humano que Ian McEwan construiu o libreto – em dois actos e dez cenas – de Por Ti, uma ópera de Michael Berkeley. Além de utilizar convenções operáticas clássicas – as vozes sobrepostas nos picos dramáticos ou os comentários à acção feitos por quem nela participa –, McEwan soube introduzir certos elementos (o cenário hospitalar, a cena de sexo com disfunção eréctil, o golpe de teatro final) que produzem um verdadeiro efeito de surpresa. Mas Por Ti vale sobretudo pela linguagem (mesmo se o vigor dos pentâmetros jâmbicos acaba esvaindo-se na tradução) e porque McEwan nunca deixa de ser McEwan. Ou seja, um sismólogo dos terramotos humanos que faz aqui uma «súmula» nada intempestiva das obsessões que atravessam os seus romances.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

One Response to “Uma súmula nada intempestiva”

  1. Ian McEwan: “Ninguém me rasga a camisa quando vou a sair do hotel” | Bibliotecário de Babel on Maio 1st, 2009 21:46

    […] Uma súmula nada intempestiva […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges