Uma vez Robocop, sempre Robocop

Homem em Armas
Autor: Horacio Castellanos Moya
Título original: El Arma en el Hombre
Tradução: Jorge Fallorca
Editora: Teorema
N.º de páginas: 116
ISBN: 978-972-695-924-3
Ano de publicação: 2011

Juan Alberto García é uma máquina assassina, um soldado com verdadeiro espírito de missão, capaz de matar inocentes desarmados se forem essas as ordens superiores. A frieza mecânica e a imponência do corpanzil (um metro e noventa de músculos) valeram-lhe uma alcunha que diz tudo sobre a sua personalidade: Robocop. Um nome ao qual fez jus durante a luta contra os guerrilheiros, integrado no temível Batalhão Acahuapa das Forças Armadas de El Salvador, o único com estofo para colocar em sentido os mais perigosos dos «terroristas».
García orgulha-se da sua folha de serviços: «Nunca fui capturado nem fiquei ferido. Muitos dos homens sob o meu comando morreram, mas isso faz parte da guerra – os fracos não sobrevivem.» Quando os líderes políticos do país chegam a um acordo de paz com os revoltosos, a sobrevivência dos fortes também se torna problemática. Finda a guerra, desmobilizado o batalhão, não é fácil regressar à vida civil. E Robocop segue o caminho mais simples: continuar a ser o que era, só que ao serviço de outros interesses.
Do roubo de carros ao narcotráfico, dos arranha-céus com helicópteros no terraço às plantações de papoilas nas montanhas da Guatemala, ele vai-se perdendo num labirinto de organizações criminosas cuja escala ignora e deixando atrás de si um rasto de sangue, até à irónica hipótese final (a de retribuir aos norte-americanos a formação militar que estes lhe deram no início da carreira).
Com um estilo cru, a escrita vertiginosa e alucinada de Castellanos Moya atira-nos à cara a violência endémica da América Central. Não é uma realidade bonita, mas alguém tinha de a contar.

Avaliação: 6,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

Comments are closed.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges