Vespa versus aranha

Passageiro do Fim do Dia
Autor: Rubens Figueiredo
Editora: Clube do Autor
N.º de páginas: 191
ISBN: 978-989-724-053-9
Ano de publicação: 2013

A ideia de que a literatura «empenhada» tem geralmente limitações estéticas serve de álibi perfeito para que muitos escritores contemporâneos se afastem de qualquer tipo de questionamento da realidade política e social do seu tempo. Assim, verificamos que as populações mais desfavorecidas estão praticamente ausentes do campo literário. Se os marginais ainda mantêm uma certa aura romântica (traficantes, assassinos e proxenetas dão sempre boas personagens), os pobres que são apenas pobres, com vidas banais, explorados no trabalho ou vítimas do desemprego, só raramente aparecem nos romances do século XXI, mesmo com esta crise inaudita que tende a multiplicar-lhes o número e a perpetuar a sua condição. Louve-se, por isso, o desassombro de Rubens Figueiredo, um escritor carioca que não hesitou em escrever uma narrativa que revela as chagas sociais do Brasil de hoje, sem filtros nem simplificações panfletárias, apenas mostrando as coisas como elas são.
Passageiro do Fim do Dia acompanha, durante quase 200 páginas, o trajecto que o protagonista, Pedro, faz de autocarro («ônibus») do centro de uma grande cidade até ao bairro degradado e periférico onde mora a namorada, Rosane. Fechado num espaço claustrofóbico, ele quer isolar-se do que o rodeia, ouvindo rádio e lendo um volume sobre a passagem de Charles Darwin pelo Brasil, trazido nessa tarde da loja de livros em segunda mão que abriu com um amigo advogado. A sua intenção é «não ver, não entender e até não sentir», mas acontece precisamente o contrário. Além de observar com minúcia os companheiros de viagem – cada vez mais enervados, à medida que se sucedem os atrasos e os engarrafamentos, bem como notícias incertas sobre perturbações da ordem pública no fim da linha, capazes de levar a alterações no itinerário –, ele mergulha num labiríntico e caleidoscópio fluxo de consciência que é a própria matéria do romance.
A caminho do mal afamado bairro do Tirol, um «caos de brutalidades», arquétipo do inferno urbanístico das periferias (a que não falta sequer a imagem de fogueiras em cada esquina, «uma energia extraída do lixo, dos restos, daquilo que ninguém quer ou precisa»), Pedro deambula pelas extensões da memória, recapitulando os principais passos da sua vida, tendo como centro gravitacional o acidente em que um cavalo da polícia lhe esmagou a articulação do tornozelo. Sem capítulos, o livro avança num encadeamento contínuo e funciona por acumulação: de histórias, de detalhes, de tensões. Os episódios narrados vão nascendo uns dos outros, emendando-se, completando-se, formando como que uma teia (bem urdida, sem descontinuidades) que se expande e alarga a compreensão de Pedro sobre si mesmo, mas também sobre a vida de Rosane e dos seus vizinhos: pessoas habituadas ao fracasso, com marcas no corpo (cicatrizes, queimaduras, doenças) a servir de mapa dos abusos e humilhações a que foram sujeitos.
Na sua leitura intermitente, Pedro descobre os apontamentos que Darwin fixou, há 150 anos, sobre a paisagem que se avista da janela do autocarro. Onde agora se vêem fábricas desactivadas, favelas, morros despidos e aterros sanitários, o criador da teoria da evolução ainda encontrou uma natureza luxuriante. Entre outros registos, o cientista inglês descreve a forma como uma vespa (Pepsis) ataca e mata uma aranha (Lycosa), história sem outra moral que não seja o triunfo do mais forte. E aqui teme-se que Rubens Figueiredo ceda à tentação das analogias darwinistas aplicadas à sociologia, o que felizmente não acontece, até porque o próprio Darwin dá conta de uma outra observação, em que é a aranha a capturar uma vespa, enrolando-a num casulo e injectando-lhe veneno, tornando menos clara a fronteira entre quem é «tirano» e quem é «vítima».
O relato da viagem interrompe-se antes do fim (faltam quinze minutos para chegar, diz o motorista na última linha do texto), não sabemos por isso o que acontece a Pedro e a Rosane, nem é necessário sabermos. Nós já estamos no bairro do Tirol, no coração da miséria. E foi um grande escritor que nos levou até lá.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

One Response to “Vespa versus aranha”

  1. Paulo Araújo on Fevereiro 15th, 2013 11:24

    Li o livro na edição original da Companhia das Letras, que mostra na capa, muito apropriadamente, uma foto (truncada) de um autocarro. Teria alguma relutância em comprar uma edição com uma capa tão feia e tão falsa.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges