Viagem de Inverno

Caminhar no Gelo
Autor: Werner Herzog
Título original: Von Gehen im Eis
Tradução: Isabel Castro Silva
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 124
ISBN: 978-989-671-081-1
Ano de publicação: 2011

Figura de proa do chamado Novo Cinema Alemão e autor de filmes em que abundam as personagens excessivas (Aguirre, Woyzeck, Fitzcarraldo, Cobra Verde), Werner Herzog é ele próprio um homem que testa permanentemente os seus limites. Os conflitos com Klaus Kinski (actor-fetiche), levados quase até às últimas consequências, tornaram-se lendários — tal como a célebre aposta perdida para Errol Morris. Herzog jurou que comeria os seus sapatos caso Morris conseguisse estrear o documentário Gates of Heaven. E cumpriu a promessa, como se pode ver num documentário de Les Blank.
Caminhar no Gelo, um relato agora editado na colecção de literatura de viagens da Tinta da China, nasce de uma obstinação parecida. No final de 1974, Herzog soube que Lotte Eisner, uma das mais importantes estudiosas do cinema alemão, estaria às portas da morte, em Paris. Decidiu então sair de casa, em Munique, com um casaco, uma bússola e um saco de desporto (contendo só o estritamente necessário), e caminhar a direito até à capital francesa, convicto «de que ela viveria se eu fosse ter com ela a pé». Estamos, é claro, no domínio do pensamento mágico, de uma inocência quase infantil. Mas o diário mostra-nos que esta viagem não foi uma brincadeira, não foi um desafio pessoal inconsequente. Muito pelo contrário.
De 23 de Novembro a 14 de Dezembro, Herzog avançou pelas paisagens desoladas da Baviera e da França ocidental, quase sempre debaixo de chuva, neve, tempestades, um frio de rachar. Como o wanderer da Viagem de Inverno de Schubert, ele perde-se na natureza hostil, descobrindo todos os cambiantes da solidão. A escrita é tensa, áspera, oscilando entre o rigor fotográfico e a alucinação onírica. No fim, o certo é que Eisner não morre, talvez porque Herzog, animado pela sua teimosia, acabou por sobreviver aos sacrifícios da terrível jornada (e nós com ele).

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges