Vidas apócrifas

A Literatura Nazi nas Américas
Autor: Roberto Bolaño
Título original: La literatura nazi en América
Tradução: Cristina Rodriguez e Artur Guerra
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 224
ISBN: 978-972-564-909-1
Ano de publicação: 2010

Publicado originalmente em 1996, A Literatura Nazi nas Américas é o mais borgesiano dos romances de Roberto Bolaño. Na verdade, chamar-lhe romance talvez peque por inexactidão. Estamos, isso sim, diante de uma pequena e engenhosa enciclopédia que reúne verbetes biográficos de três dezenas de escritores obscuros, com a respectiva bibliografia (mais de 200 títulos) em anexo. Tudo apócrifo. Tudo saído da imaginação livresca de Bolaño, que criou esta galeria de personagens sinistras a partir de duas das suas grandes obsessões: o mistério da literatura (nas suas histórias há sempre escritores, por vezes tentando compreender, ou encontrar, outros escritores) e o fascínio do mal, simbolizado quase sempre por avatares da mitologia nazi.
Embora o título do livro o sugira, nem todos os autores referidos são devotos do Terceiro Reich. É certo que Luz Mendiluce Thompson exibe no seu salão, «emoldurada num rico trabalho de prata lavrada», a fotografia em que surge, bebé de poucos meses, nos braços de Adolf Hitler. E Willy Schürholz, nascido numa colónia alemã fundada no Chile, logo após o fim da II Guerra Mundial, constrói os seus poemas gráficos a partir das plantas de vários campos de concentração (Auschwitz, Buchenwald, Dachau, etc.). A maior parte das outras figuras, porém, são extremistas à sua maneira. Há defensores da pureza rácica e da supremacia ariana que não exibem necessariamente a suástica, há uns quantos fascistas saudosos do tempo em que combatiam ao lado de Franco, há quem odeie judeus e homossexuais, ou quem se limite a cultivar a brutalidade física e mental à maneira dos skinheads.
Deste caldo turvo vai emergindo toda a sorte de visionários, profetas, plagiadores, aldrabões, loucos, criminosos, viúvas ricas e líderes de claques de futebol – uma fauna heteróclita, ridícula nos seus delírios de grandeza (veja-se o caso do autor brasileiro que escreve sucessivas e volumosas refutações dos filósofos franceses do Iluminismo), gente menos ameaçadora do que risível. Na maior parte dos casos, as aspirações são enormes até embaterem com estrondo no muro da realidade. E os livros que estes poetas e romancistas editam conhecem uma de duas sortes: ou passam completamente despercebidos; ou são trucidados pela crítica oficial. Resistindo à tentação da caricatura e sem abusar do sarcasmo, Bolaño mostra de forma crua a mecânica do falhanço nesta espécie de submundo, todo ele cheio de trevas e mediocridade.
Artífice cuidadoso, o escritor chileno fez deste A Literatura Nazi nas Américas um labiríntico edifício ficcional, com muitos corredores paralelos e muitas portas, algumas das quais permitem que os vários percursos de vida narrados se cruzem e sobreponham. Mas fez mais. Se olharmos com atenção, este livro é também uma espécie de mapa para o resto da sua obra. Por exemplo, na página e meia dedicada a Daniela de Montecristo, refere-se que ela «se apaixonou por um general do exército romeno, Eugenio Entrescu, que foi crucificado pelos seus próprios soldados em 1944». Esta cena, mencionada aqui de passagem, virá a ser descrita em pormenor na última parte de 2666, publicado já postumamente, oito anos mais tarde.
O carácter intratextual e expansivo desta escrita é mais nítido ainda no caso do derradeiro capítulo, sobre «o infame» Ramírez Hoffman, poeta-aviador que escrevia versos no céu. As suas ignominiosas façanhas, compactadas em vinte páginas, formaram depois o cerne do magnífico Estrela Distante (também de 1996). Cotejar a primeira versão da história com o romance – verificando a persistência, tal e qual, de muitas frases; mas também as muitas alterações, tanto nos nomes das personagens como nas circunstâncias de certas cenas – é uma verdadeira aula prática de literatura aplicada. Principal diferença: em Estrela Distante, Bolaño deixa de se assumir como narrador e atribui a composição do livro ao seu alter-ego Arturo Belano, um dos protagonistas de Os Detectives Selvagens, enquanto convoca «o fantasma cada vez mais vivo de Pierre Menard». Outra vez Borges, fechando círculos dentro de círculos.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

2 Responses to “Vidas apócrifas”

  1. Gerana Damulakis on Novembro 11th, 2010 1:16

    Parece ótimo.

  2. curioso on Novembro 14th, 2010 9:49

    9/10 só? Esse ponto que faltou deve-se a quê?

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges