A banana de Scliar
No início do século XX, um rapazinho russo foge, com a família, da revolução bolchevique e chega a Porto Alegre (Rio Grande do Sul), no porão de um navio de carga. Durante a viagem de cinco semanas através do Atlântico, o futuro imigrante passou fome. Está muito frágil, esquelético, subnutrido. No cais, ao ver o seu estado, um gaúcho hospitaleiro oferece-lhe uma banana. O miúdo compreende que se trata de uma coisa de comer, embora não saiba como. Português não fala, por isso mexe no fruto esquisito, experimenta-o. «Até descobrir que a banana se descasca. Ele sabia que a laranja se descascava, porque na Rússia, nos dias de festa, costumava haver uma laranja para distribuir pela família inteira (um gomo para cada um). E ele sabia que a laranja tinha casca e caroços. Ao descascar a banana, apareceu uma coisa que ele julgou ser o caroço da banana. Deitou fora esse caroço e, para surpresa do gaúcho, comeu a casca de banana até ao fim.» Muitos anos mais tarde, o escritor brasileiro Moacyr Scliar, seu filho, que é quem fala dentro destas aspas, haveria de pegar na história e contá-la «mais de mil vezes». A última foi no encontro Correntes d’Escritas, na Póvoa de Varzim, e o desenlace voltou a despertar gargalhadas e aplausos na plateia: «Meu pai morreu com mais de 80 anos e nunca deixou de me dizer: “sabe, filho, casca de banana não é tão ruim assim como a gente pensa.”»
É disto, sobretudo, que se fazem as Correntes. Das histórias contadas por autores sentados à mesa, diante de um auditório sempre cheio, mesmo nas sessões que começam às dez e meia da manhã. Ninguém sabe como explicar isto, mas a verdade é que o fenómeno se repete anualmente, sem atrasos nem sobressaltos, e todos os escritores se rendem à organização quase invisível, mas extraordinariamente eficaz, de Manuela Ribeiro e Francisco Guedes, os coordenadores que gerem com cordelinhos mágicos uma equipa e um encontro exemplares.
Este ano, na muito concorrida 10.ª edição, além da história do autor de Os leopardos de Kafka, houve outras que maravilharam os espectadores. Por exemplo, a de Joaquim Arena, um autor cabo-verdiano que cresceu numa casa onde havia apenas quatro livros: Lady L., de Romain Gary; O Barão Trepador, de Italo Calvino; um outro de que não se recorda e a Bíblia. Quando escrevia cartas aos familiares, a avó fechava-se com a biblioteca mínima numa sala e Arena sempre supôs que ela precisasse dos livros como caução literária. A verdade era mais prosaica: «Um dia descobri que a minha avó usava os livros, sim, mas para guardar selos: os para a Europa dentro do Barão Trepador, os para a América dentro de Lady L. e os para Cabo Verde dentro da Bíblia, claro.»
Se o espaço desta crónica fosse elástico, caberiam aqui ainda outras belas histórias (as de Juan José Millás, Héctor Abad Faciolince, Paulina Chiziane, Andrea Blanqué, António Orlando Rodriguez, Luandino Vieira, etc.). Como não é elástico, o «caroço» comestível tem que ser deitado fora. Fica uma ideia ténue do que por lá se passou. A casca. Talvez não tão ruim assim.
[Texto publicado no n.º 78 da revista Ler]
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2 Responses to “A banana de Scliar”
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tenho andado com desejo de histórias… essas souberam-me mesmo bem!
Eu sou apaixonado por livros ,eu queria que você me mande alguns livros porque meus pais não podem pagar meus livros