A mecânica da coisa

A funcionária primeiro ficou calada, com os olhos muito esbugalhados, depois tamborilou os dedos e encolheu os ombros. Eu limitara-me a fazer uma pergunta. Uma simples pergunta, logo repetida para criar ênfase oratória. «Minha senhora, acha que isto tem alguma lógica? Vá lá, ponha-se no meu lugar e diga-me: acha que isto faz algum sentido?». Após o encolher de ombros, a funcionária esbugalhou ainda mais os olhos e dignou-se finalmente a dar uma resposta. «Eu cá não sei se tem lógica ou não tem lógica, eu estou aqui para cumprir ordens e as ordens que me deram foram estas.»
Recuemos um passo e expliquemos melhor o contexto deste diálogo de surdos. O palco é o balcão de uma junta de freguesia, a freguesia para a qual me mudei recentemente. Temendo ser multado pela EMEL, ao estacionar perto da nova casa, encetei uma verdadeira odisseia burocrática com vista à substituição do «selo de residente». Coisa complicadíssima, está bom de ver. Entre outras obrigações, tinha que alterar o domicílio fiscal nas Finanças e a morada em todos os meus documentos (BI, carta de condução e contrato de ALD). Depois de muito esforço – duas sessões de três horas de espera na DGV e cinco idas à repartição de Finanças, porque «o sistema continua em baixo» – lá juntei a papelada. Faltava, porém, um item: o atestado de residência.
Se há burocracia que me põe os nervos em franja, é esta. A burocracia que só serve para nos arreliar e nos fazer perder tempo, a burocracia preguiçosa, inútil e estúpida. Eu bem que tentei mostrar o contrato de arrendamento, com o meu nome e a nova morada lá escarrapachados, mais o recibo dos dois primeiros meses. Mas nada disso, ao que percebi, é suficiente. «O que o senhor tem que fazer», disse-me a tal funcionária, «é pedir o carimbo e a assinatura de dois comerciantes da zona, está a ver?». Eu não estava a ver. E foi então que fiz a tal pergunta. E obtive a tal resposta. Resumindo: o contrato de arrendamento não chega como prova, mas a assinatura de duas pessoas que nunca vi – e que nunca me viram antes, uma vez que acabo de chegar ao bairro – serve perfeitamente. Repeti argumentos, esbracejei, indignei-me uns bons minutos. A funcionária continuou de olhos esbugalhados e voltou a encolher os ombros. «São as ordens que tenho, o que é que quer que eu faça?» «Não faça nada», disse em voz baixa enquanto descia as escadas, «não faça nada que realmente não é preciso».
Enervações à parte, é óbvio que voltei dois dias depois, com todos os carimbos e assinaturas bem legíveis. Mas não foi fácil. A princípio, olharam-me de lado num café e num oculista, aparentemente «escaldados» com más experiências anteriores. No mini-mercado, disseram logo que não tinham tempo nem paciência para me atenderem. O que me safou foi o ar de bom rapaz, acho eu. Isso e a compreensão do gerente de uma loja de móveis da minha rua, bem como a simpatia do dono de uma boutique de roupa que fica mesmo ao lado. Safei-me com sorrisos e muitos salamaleques. «Por favor, é mesmo aí que tem de assinar, obrigadinho, afinal de contas vamos ser vizinhos, não é?». Pois é. E se eu tivesse outra cor de pele, um aspecto menos composto, umas olheiras de toxicodependente, um sotaque ucraniano? Será que conseguiria os malditos carimbos? Não perguntei isto à funcionária, claro, mas tenho a certeza que ela encolheria, mais uma vez, os ombros.
A odisseia não ficou por aqui, talvez porque existe uma espécie de lei de Murphy a pairar na minha relação com os trâmites burocráticos: o que pode correr mal, corre mesmo mal. Veja-se o caso da nova carta de condução. Quando me chegou às mãos, vinha errada: mantendo a minha morada antiga (aquela que eu pedi para mudar) mas com o código postal da nova! E casos destes repetem-se com uma frequência assustadora. Ao abrir conta num banco, por exemplo, pedi o respectivo cartão. As semanas passaram; nada. Fez-se uma segunda via e uns dias depois chegaram, quase ao mesmo tempo, os dois cartões: o pedido e o perdido. Ou seja, houve mais plástico cunhado em vão, mais desperdício, mais lixo e mais energias desperdiçadas, a juntar à nova carta de condução que não chegou a servir para coisa nenhuma.
Só porque a paciência tem limites, poupo-vos aos detalhes de outras desventuras porque passei, desde a transferência bancária que ficou bloqueada porque alguém digitou mal o meu número de conta (mas por que raio haveremos de arcar sempre com a incompetência dos outros?) ao mês e picos que fiquei à espera de gás – com manhãs e tardes perdidas por conta das equipas de peritos que estudaram, pormenorizadamente, a fuga oculta, e das empresas sub-contratadas para fazerem outra canalização, e das fiscalizações que nunca, mas nunca, podem ser para o dia seguinte.
Talvez eu tenha muito azar. Ou então uma espécie de malapata com os aspectos materiais da vida. Não me parece, contudo, que seja o único. À minha volta, ouço muitas histórias semelhantes. Histórias de pessoas perdidas em labirintos de papel, lutando pela sobrevivência em notários, repartições e conservatórias, abrindo garrafas de champanhe sempre que conseguem resolver o mais insignificante e mínimo dos assuntos. Histórias de desespero perante a máquina pesada do Estado, histórias da fúria legítima de cidadãos cumpridores a que ninguém dá ouvidos, histórias dos muitos dias que se esfumam com a senha n.º 578 na mão.
Certa vez, para me acalmar, um zeloso manga-de-alpaca apelou ao meu bom-senso, ao meu conformismo: «A mecânica da coisa é mesmo assim, amigo, não vale a pena exaltar-se.» Acontece que o problema é precisamente esse. Existe uma mecânica da coisa pública que serve apenas para esmagar o cidadão. Uma mecânica perversa, alimentada há muitos anos por um desleixo congénito que só conduz à mediocridade e ao imobilismo. Uma mecânica capaz de castigar quem não preencheu convenientemente – e com tinta preta – a alínea f) do modelo B («alto lá, olhe que assim não lhe posso dar seguimento ao processo»); ao mesmo tempo que fecha os olhos aos mais inconcebíveis crimes de colarinho branco (recorde-se o escândalo das prescrições judiciais ou a nunca travada evasão fiscal, que deixa impunes os que ganham muito e nada declaram).
Quando se lêem os relatórios da Comissão Europeia sobre as fragilidades da economia portuguesa, quando se questiona o porquê da baixa produtividade nacional e da lentidão com que respondemos às crises, era bom que alguém se lembrasse desta «mecânica da coisa», terrível e oculta como a fuga de gás da minha casa. Enquanto não se fizer algo que a elimine de vez, bem podem os candidatos a primeiro-ministro passear-se pela Europa, orgulhando-se da pronúncia de Tony Blair quando os chama pelos nomes próprios. Não conseguirão absolutamente nada. Portugal é como a funcionária da junta de freguesia. Não quer chatices, só cumpre ordens. No intervalo para almoço, faz malha enquanto debica uma carcaça com queijo e descasca as três tangerinas guardadas num saco de plástico, dentro da gaveta. Pica o ponto às cinco em ponto, Portugal. Só não quer que o chateiem. E se alguém reclama ou lhe pede satisfações, encosta-se ao balcão e repete que a «mecânica da coisa, amigo, é mesmo assim».

[Texto publicado no suplemento DNA, do Diário de Notícias, em 2001]



Comentários

2 Responses to “A mecânica da coisa”

  1. Luís Tavares on Outubro 13th, 2012 15:36

    Pois é, caro José, o seu texto continua, inflizmente, atual.
    Há cada vez mais pessoas que ‘vivem’ situações semelhantes.
    É a mecânica da coisa ou a nossa triste sina.

  2. barbara on Outubro 13th, 2012 19:03

    engraçado, sem ter piada claro. tinha acabado de ler um post que falava em fazer negocio com as senhas da loja do cidadao (http://oraculoextraterrestre.wordpress.com/2012/10/13/adaptar-se-a-troika/) qd vim ao seu blogue. 2001 ou 2012, nada mudou, e tendo em conta que esta semana perdi uma manha no metro porque o passe estragado pelo MB nunca é da responsabilidade de ninguem, como eu o percebo…

    talvez a malta que quer vender senhas da seg. social saiba o que fazer para mudar isto. eu nao faço ideia.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges