Bolaño à beira-mar

Conheço muitos leitores que têm horror da praia. O vento, a areia, as famílias que falam muito alto, o barulho irritante das raquetas, poc-poc, poc-poc, os vendedores de bolas de Berlim e línguas-da-sogra não autorizadas pela ASAE, os rapazes loiros que projectam sombras nas páginas com as suas pranchas, as criancinhas que se perderam dos pais ou querem fazer chichi, os homens barrigudos que se põem a discutir o Benfica, Record debaixo do braço, a menos de um metro de distância. Eu, por mim, não me queixo. Quem se habituou a ler nos cafés da Graça, alheio ao tilintar da loiça, às canções foleiras da RFM e aos lamentos das velhinhas a caminho (ou no regresso) do centro de saúde, aguenta tudo. Com os anos, e após a passagem por várias redacções de jornal em open space, aprendi a criar uma espécie de capacete imaginário à volta da cabeça, uma redoma que me isola do mundo e me permite ler, ou escrever, como se estivesse na cela mais silenciosa de um mosteiro.

Na praia não é diferente. Chego, escolho um lugar que me parece mais abrigado (o sopé de uma duna, por exemplo), monto a cadeira de lona comprada num bazar de Aljezur, seguro no livro de forma a poder espreitar, por cima dele, a pequena lagoa onde os meus filhos chapinham, e entrego-me ao prazer da leitura sem hora marcada, ignorando olimpicamente o que os meus vizinhos fazem ou deixam de fazer. Depois, quando acabo um capítulo e não me apetece logo começar outro, pouso o livro, levanto-me, reparo enfim numa família que devora talhadas de melancia à minha esquerda, no casal estrangeiro com bonés de pala que se imagina em Roland Garros, poc-poc, poc-poc, poc-puf, na menina que perdeu o balde de plástico, na avioneta que arrasta uma faixa com publicidade a um clube nocturno, e estico os braços, flicto as pernas, aproximo-me da água, afiro a temperatura das ondinhas, desafio os miúdos para um passeio até às rochas lá ao fundo, ou deixo-me estar, pés afundados na areia molhada, a olhar para o horizonte. Sei que os tais leitores com horror da praia farão uma careta, mas isto, para mim, se não é o paraíso, anda lá perto.
Há um outro aspecto que me leva a gostar muito das leituras na praia. Se na cidade interrompemos o romance que estávamos a ler, é geralmente porque alguém nos telefonou e precisa da nossa atenção, ou porque chegámos à paragem de metro onde alguém nos espera, ou porque a assistente do dentista nos chamou para a cadeira da tortura. O telefonema, a conversa com o amigo ou o ruído da broca ocupam então o palco da nossa consciência e o que estávamos a ler fica remetido para um difuso segundo plano, como que atrás de cortinas pesadas, até termos de novo disponibilidade para pegarmos no livro, voltarmos atrás umas quantas páginas e retomarmos o fio da história. Na praia, pelo contrário, com os pés enterrados na areia molhada e a contemplar o horizonte, continuamos imersos na narrativa e recapitulamos diálogos, relembramos detalhes, estabelecemos nexos entre as cenas e, no limite, até projectamos certas personagens em certos banhistas que avançam mar adentro, com as costas vermelhas do escaldão da véspera e água pelo joelho. Aquele ali, por exemplo, podia perfeitamente ser o Senhor Palomar (o de Italo Calvino, entenda-se; não confundir com o blogger homónimo que anda a baralhar o meio literário português com o seu misterioso anonimato). E aqueloutro, muito alto e com pinta de alemão, talvez seja o fugidio Benno von Archimboldi, o escritor que se torna a obsessão de quatro académicos, na primeira parte do romance 2666, de Roberto Bolaño. E por falar nos quatro académicos, ainda agora, ao olhar por cima do ombro, vi um grupinho a olhar para o homem alto com pinta de alemão e era capaz de jurar que o grupinho, agora a fingir que contempla um castelo de areia, é composto por Jean-Claude Pelletier, Piero Morini (em cadeira de rodas e tudo, não faço ideia de como a transportaram até ali), Manuel Espinoza e Liz Norton, que transporta na mão direita um volume cujo título, se a vista não me atraiçoa, é Bifurcaria bifurcata.
O sol vai alto, propício a miragens de calor e alucinações literárias. Regresso à toalha, onde o Sony Reader me aguarda, espalmadinho, com as mil páginas de 2666 lá dentro. Num dos cantos do ecrã de e-ink, um grão de areia. Depois do regresso a Lisboa, verifico: ainda lá está. É a testemunha melancólica das férias que chegaram ao fim.

[Texto publicado no n.º 84 da revista Ler]



Comentários

3 Responses to “Bolaño à beira-mar”

  1. MM on Novembro 16th, 2009 13:02

    tão, mas tão bonito, o seu texto, ZM

  2. rita on Novembro 17th, 2009 22:40

    É engraçado esta forma de te conhecer. Foi através de um texto maravilhoso que descobri que tal como eu és um amante de café. E agora que te encantas com a praia. São pequenos pormenores que é bom saber entre pessoas que pouco se vêem mas que muito se gostam.
    da tua prima
    que gosta de te ler

  3. José Mário Silva on Novembro 18th, 2009 10:48

    Obrigado, prima.
    😉

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges