Caixa negra
Esta crónica podia perfeitamente ter a forma de uma crónica normal: frases mais longas, frases mais curtas, quatro ou cinco parágrafos. / A ideia era reflectir sobre Black Box, o conto que Jennifer Egan publicou no recente número da New Yorker dedicado à Ficção Científica. / Acontece que às vezes os textos sobre os quais escrevemos desafiam-nos e provocam-nos, empurrando-nos para uma espécie de mimetismo. / Foi o caso desta narrativa, dividida pela autora em blocos curtos, capazes de encaixar no limite de 140 caracteres do Twitter. / A meio da leitura, já decidira que a minha prosa também se fragmentaria em frases curtas – embora menos engenhosas e trabalhadas, claro. / Quando escrevi sobre A Visita do Brutamontes (Quetzal), que deu a Egan o Pulitzer, também sonhei esquematizar a crítica num PowerPoint. / No agora famoso 12.º capítulo desse romance, uma rapariga pré-adolescente reduz a vida familiar a gráficos, tópicos, setas e fluxogramas. / Pode parecer mero exibicionismo técnico meta-literário, mas a verdade é que o dispositivo narrativo funciona e faz todo o sentido. / Egan está muito atenta ao impacto das novas tecnologias de comunicação na vida contemporânea e gosta de as integrar no processo de escrita. / Era quase inevitável que se decidisse, mais tarde ou mais cedo, a experimentar o efeito de serialização permitido pelo Twitter. / Fê-lo agora, consciente de que não estava a inventar a pólvora – muitos, antes dela, já criaram histórias a pensar no site do passarinho. / A diferença é que a esses outros escritores, mais obscuros, ninguém se lembraria de convidar para números especiais da New Yorker. / Antes de surgir em papel e na edição para iPad, o conto foi sendo publicado na conta de Twitter da revista, literalmente a conta-gotas. / Durante dez dias, entre as oito e as nove da noite (hora de Manhattan), o folhetim digital avançou à razão de um tweet por minuto. / Eu só o li depois de publicado na íntegra, por isso perdi o efeito da descoberta gradual, embora não a sensação de fluxo constante. / Narrada na segunda pessoa, a história é o relato aventuroso de uma missão secreta, cumprida por uma espia, algures no futuro. / Esta agente sem nome (que a autora diz ser Lulu, personagem de A Visita do Brutamontes) é uma mulher normal em circunstâncias excepcionais. / Heroína voluntária, como centenas de outras iguais a ela, o seu objectivo é zelar pela segurança dos EUA, prevenindo acções terroristas. / Destacada para o sul de França, cabe-lhe vigiar de perto um suspeito (o «Designated Mate»/«Par Designado»), homem rude e violento. / O seu papel é o da beldade que circula nas villas luxuosas sobre o Mediterrâneo, entre criminosos, como jóia que se exibe à cobiça alheia. / A acção vai sendo descrita através de instruções precisas: faz isto, evita aquilo, age desta maneira, não te distraias, regista tudo. / No fundo, trata-se de informação guardada num chip, sob o couro cabeludo, uma espécie de diário que servirá de guia para quem vier depois. / Aprendemos assim como se deve seduzir, a melhor forma de passar despercebida numa festa, como estar perto das conversas que interessam. / Ou, ainda, como suportar o sexo forçado e brutal (através de uma Técnica de Dissociação que permite separar a consciência do corpo). / Às agentes pede-se, acima de tudo, uma demonstração de amor ao seu país através do sacrifício, a «mais alta forma de patriotismo». / Nos seus corpos desejáveis foram implantados gravadores e câmaras que podem, se usados com a devida discrição, salvar muitas vidas. / O risco é enorme, mas se conseguirem sobreviver (ou se os seus corpos forem resgatados), terão lugar no panteão do «novo heroísmo». / Em si mesma, a história não tem nada de muito singular: está no domínio do thriller de espionagem, com algumas pitadas de ficção científica. / Interessante é a escrita: frases impecavelmente cinzeladas, de ritmo perfeito e discreto lirismo, as ideias aglomerando-se como células. / Todo o contrário das frases desta crónica, também elas aquém do limite twitteriano, mas incapazes, coitadas, de sobreviverem sozinhas. / A não ser esta que te envia, caro leitor, para o sítio certo: http://www.newyorker.com/fiction/features/2012/06/04/120604fi_fiction_egan.
[Texto publicado no n.º 115 da revista Ler]
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2 Responses to “Caixa negra”
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Olá!
Já agora aproveito para dizer que sigo “religiosamente” este blog e obrigada por esta BABEL
o link correcto para o artigo do New Yorker sobre “Black Box” é http://www.newyorker.com/fiction/features/2012/06/04/120604fi_fiction_egan
o que está no post não “resulta”.
Bom trabalho!
Helena
Obrigado, Helena.

Já corrigi.