Coetzee aos trinta e tal anos
A cada um a sua loucura. Há quem se atire de uma ponte com um elástico preso aos pés. Há quem durma várias noites ao relento para ficar junto ao palco nos concertos da Madonna. Há quem se feche com os amigos um fim-de-semana inteiro, disputando campeonatos de futebol virtuais na PlayStation. E há quem decida ler de uma assentada, em duas ou três semanas (no intervalo entre o anúncio da shortlist e o anúncio do vencedor), os seis finalistas do Man Booker Prize. Foi o meu caso em 2008. Foi o meu caso este ano. Em menos de 20 dias, mais de 2600 páginas. Uma espécie de suplício de Sísifo auto-infligido. Um desporto radical em versão literária. Uma maratona de leitura que começa por invadir todos os espacinhos livres da vida diária e depois também invade os espacinhos que não estavam livres. Um interregno de pura imersão narrativa, impossível de levar a bom termo sem uma disciplina draconiana e alvoradas às cinco da manhã.
Quando o último envelope da Amazon chegou, a pilha em cima da mesa metia respeito. Não só devido à espessura dos volumes; também pelo que os nomes dos autores prometiam. Toda a gente falava de uma colheita vintage, de um dos melhores Bookers dos últimos anos, e a expectativa não foi defraudada. Comecei por atacar The Glass Room, de Simon Mawer, um sólido romance sobre arquitectura, sexo, famílias, traições e o que acontece a uma casa perfeita quando os tempos não acompanham essa perfeição. Do autor mais jovem, Adam Foulds (também poeta), apreciei a elegância da escrita e o modo como explora, em The Quickening Maze, o tema da loucura (sem cair nas armadilhas que lhe estão associadas). A longa saga cheia de ramificações narrativas de A.S. Byatt (The Children’s Book) e o relato literalmente fantasmagórico de Sarah Waters (The Little Stranger) cumpriram o que deles esperava: perfeição estilística e domínio da forma romanesca. Mas não me empolgaram.
O primeiro sobressalto de entusiasmo aconteceu com Wolf Hall, a magnífica reconstituição que Hilary Mantel fez da corte de Henrique VIII, e da trajectória ascendente de um homem maquiavélico e ardiloso (Thomas Cromwell), saído da miséria em Putney para os bons ofícios do cardeal Wolsey, e mais tarde para o círculo mais íntimo do rei. Mantel escreve tão bem que chega quase a ser ofensiva e reconciliou-me com um género que há muito deixara de me interessar (o romance histórico). Por isso, o prémio final assenta-lhe que nem uma luva, além de fazer justiça a uma das mais subavaliadas escritoras inglesas. Se dependesse de mim, porém, teria escolhido J.M. Coetzee, fazendo dele o primeiro autor a ganhar três vezes o Booker.
Summertime (Harvill Secker, 266 páginas) é o livro com que Coetzee fecha a sua trilogia de memórias ficcionadas, iniciada com Boyhood (1997) – sobre a infância na Cidade do Cabo, no final dos anos 40 e início dos 50 – e Youth (2002), que descreve a sua vida em Londres, no início da década de 60, e as suas primeiras tentativas poéticas. Nessas duas obras, Coetzee fala de si mesmo na terceira pessoa e esse distanciamento reflecte o extremo cuidado com que o escritor sul-africano, conhecido pelo zelo posto na protecção da sua privacidade, aborda os materiais biográficos no processo de os transformar em literatura. Mesmo quando os factos são reais, o protagonista nunca é o verdadeiro Coetzee mas uma personagem em tudo semelhante, o seu reflexo no espelho da ficção.

Ilustração de Pedro Vieira
Em Summertime, esta ambiguidade é levada ao extremo, pelo recurso a uma estrutura narrativa fragmentada e potenciadora das incertezas meta-literárias que Coetzee tanto aprecia. Em vez de uma história linear, o que o livro nos oferece é um conjunto de materiais que o biógrafo de Coetzee, um tal Mr. Vincent, reúne após a sua morte, tentando fixar uma certa época (os anos de 1972 a 1977), quando o escritor, então com trinta e poucos anos, ainda não era o escritor que veio a ser mas para lá caminhava. Vincent transcreve entrevistas com várias pessoas que terão conhecido Coetzee na altura (uma amante, uma prima, a mãe brasileira de uma das suas alunas, colegas do meio académico), além de excertos dos seus cadernos de notas. O retrato que emerge destes depoimentos em bruto – cheios de incongruências, animosidades, contradições – é de uma crueza devastadora. Coetzee surge-nos como um homem emocionalmente opaco, incapaz de se relacionar com os outros, um corpo estranho fechado sobre si mesmo (a amante acusa-o de autismo sexual), um feixe de ideias confusas à deriva numa África do Sul em pleno apogeu do apartheid. O Coetzee de hoje não doura a pílula ao Coetzee trintão, nunca contemporiza com as suas fragilidades e falhanços. Mas, paradoxalmente, isso só o torna mais humano.
O resto é a arte da linguagem. Ou seja, o esplendor da língua inglesa, elevada aos céus por um dos seus melhores cultores.
[Versão ligeiramente mais longa de um texto publicado no n.º 85 da revista Ler]
Comentários
3 Responses to “Coetzee aos trinta e tal anos”
- Os reflexos do mal em 19 de Maio de 2012
- O que aí vem (Esfera do Caos) em 19 de Maio de 2012
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curiosamente, andei a fazer o mesmo mas em versão reduzida. Acho que a Byatt sai um pouco injustiçada nesta crónica, já que a ficção que produziu me parece bastante empolgante, se nos acomodarmos ao ritmo clássico da narrativa.
Coetzee continua sem dúvida a revelar ao seu modo quem é, mas defendo, numa opinião muito pessoal, que o seu testemunho mais sincero é o de Disgrace.
Finalmente, tenho uma certa impressão de que os finalistas do booker deste ano vão ser esmagados pelo novo pamuk, pelo que já espreitei do volume escondido cá em casa. abraço, jv
Concordo com o primeiro paragrafo de jv; com o segundo, olhe lá… Abraço, Lúcia Medeiros
[...] Nas livrarias em Fevereiro. Sobre o romance de Coetzee já falei aqui. [...]