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Da escrita como obsessão

A verdade é que já não me lembro onde comprei este livro, nem porquê. Estava ali na estante, fininho, à espera, com a sua capa sombria (uma toupeira coberta de insectos, pendurada de um ramo por uma corda) e o seu título misterioso: Évocation de Matthias Stimmberg suivi de Six notes autour de l’écriture et de l’obsession (Bibliophane-Daniel Radford, 93 págs., 2003). Hoje peguei-lhe. E apercebi-me que fui traído pelo nome do autor, Alain-Paul Mallard, que julguei francês. Na verdade é mexicano, nasceu em 1970 e vive actualmente em Paris, onde trabalha como realizador de cinema. A sua bibliografia resume-se a este livro, cuja primeira parte já tinha sido publicada no México, em 1995, e a Recels, outro volume de prosas curtas, editado já este ano por L’Arbre Vengeur.
Uma rápida consulta ao Google desfaz uma dúvida: e se Mallard, como o Matthias Stimmberg evocado nestas ficções, fosse um escritor imaginário? Não é. A informação online revelou-se escassa, mas encontrei um vídeo, fotos, algumas recensões e uma nota biográfica que menciona a «lenda familiar» segundo a qual o seu nome proveio de um soldado, participante na expedição militar francesa ao México (1861-1867), que se terá perdido nas margens do rio Papaloapan, no sul do estado de Veracruz.
Comecemos pelas notas «em volta da obsessão e da escrita», preparadas para um colóquio internacional de «jovens narradores», em que Mallard se cruzou, entre outros, com o dominicano Junot Díaz, autor de A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao, excelente romance de estreia que ganhou o Pulitzer de Ficção em 2008. Na sua intervenção, Mallard começa por lembrar uma célebre frase de Freud – «a cultura engendra a neurose» – com a intenção de a inverter, mostrando que a neurose também pode engendrar a cultura; ou, mais especificamente, a literatura. Pelo simples facto de que «complicam o problema humano», os desequilíbrios (psicológicos ou de personalidade) serão sempre propícios à criatividade literária. Mallard concentra-se sobretudo no modo como o comportamento obsessivo condiciona, desbloqueia ou alimenta o trabalho de escrita de alguns autores. Francis Ponge, por exemplo. Durante quase um terço da sua vida, de 1942 a 1967, o autor de O Partido Tomado Pelas Coisas procurou fixar com palavras a natureza escorregadia e evanescente do sabão, até que reuniu em livro o somatório de todas essas tentativas e «ângulos de ataque», as «declinações sucessivas» de um mesmo tema, com «intuições, avanços, naufrágios, contra-sensos». Houve no projecto de Ponge tanto de obsessão como de perseverança, resume Mallard, mas acima de tudo houve uma «lição de escrita».
Caso distinto é o de Juan Rulfo, em que o temperamento obsessivo, mais do que conduzir à persistência num tema, é um «garante da forma». Entre a primeira e a segunda edição de A Planície em Chamas (edição portuguesa da Cavalo de Ferro), Rulfo introduziu pequenas variantes lexicais que são exemplos do mot juste flaubertiano, reflectindo uma vontade de levar até ao limite a coerência textual e de fixar «definitivamente» a prosa literária. O que Mallard pretende, em última análise, é estabelecer para si mesmo uma praxis da escrita que passa pela máxima exigência estética. Um texto só deve ser publicado quando as partes que o constituem encontraram a sua forma final. E isso implica uma «batalha contra a linguagem». Uma batalha sem tréguas. E das duas uma: ou se consegue dominá-la, ou se acaba dominado por ela. Seja como for, para Mallard escrever é sempre «servir a linguagem», porque «desde que Borges demonstrou a existência da página perfeita» temos o dever de aspirar a essa perfeição.
Costuma dizer-se que entre a teoria e a prática há sempre uma certa distância, mas isso não se aplica a Alain-Paul Mallard. Em Évocation de Matthias Stimmberg, ele cumpre à risca o que defende nas notas. Máximo rigor verbal, máximo depuramento, máximo efeito literário. A primeira versão destes contos tinha 200 páginas; a final, pouco mais de 50. A reescrita foi tão furiosa que o escritor colombiano Alvaro Mutis terá dito: «é preciso arrancar-lhe o livro antes que ele desapareça». Como o sabão de Francis Ponge.

[Texto publicado no n.º 83 da revista Ler]



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