Escadas de incêndio

Já todos intuímos o que aí vem. A imprensa escrita, em papel, dificilmente sobreviverá a estes tempos de crise aguda. Quem julgar que se trata de uma tormenta, desengane-se: estamos perante um naufrágio. Aquilo a que assistimos – queda a pique das vendas em banca, fuga da publicidade, redacções reduzidas ao mínimo e mal pagas, desinvestimento no jornalismo de investigação, ausência de verdadeiros mecanismos de controlo da qualidade jornalística (do rigor no uso da língua à simples verificação dos factos), vulnerabilidade financeira que põe em causa a independência, etc. – é um caminho de perda progressiva e enfraquecimento radical do quarto poder, justamente quando ele seria mais necessário do que nunca para escrutinar a realidade política e económica do país. Resumindo, em bom economês, o modelo de negócio deixou de ser rentável e ainda ninguém descobriu como dar a volta ao texto. Resta saber, aliás, se há mesmo volta a dar ou se mais vale começar tudo de novo, de outra maneira. Para já, importa perceber que o prédio está a arder e ter esperança de que alguém encontre, ou invente, saídas de emergência.
Admito que o raccord é um pouco forçado, mas foi numa escada de incêndio que nasceu uma semente do que pode vir a ser a nova paisagem mediática, no que à imprensa escrita diz respeito. Uma escada de incêndio em Nova Iorque, onde Uzoamaka Maduka, uma licenciada em Princeton de origem nigeriana, agora com 25 anos, estava a fumar um cigarro, ao frio, com Jac Mullen, o seu namorado. Discutiam o que muitos outros jovens com interesses literários e artísticos discutem: a falta de espaço, no panorama editorial instituído, para escritores e leitores na faixa dos vinte/trinta anos. Toda a gente parte do princípio de que a geração Y – a dos iPhones e iPads, a do Facebook e do Twitter – não quer saber de textos longos (ensaios com muitas páginas, recensões que escapem ao formato bonsai dos jornais) ou que só toleram o que vêem num ecrã, ignorando o velho prazer da leitura em papel. Grande equívoco. O que Maduka e Mullen desejavam era uma publicação que desse a ver as realidades literárias emergentes, a nova ficção e a nova poesia, sem deixar de reflectir criticamente sobre os livros e autores que aparecem nas revistas consagradas. Como essa publicação ideal não existia, criaram-na. E assim surgiu, em 2012, a The American Reader, que alguém disse ser uma espécie de irmã mais nova, e mais cool, da New Yorker. A edição em papel, mensal, financiada por um investidor anónimo, prolonga-se num site de grafismo sofisticado e fácil de navegar. Se o sucesso chegou muito depressa, tal não se deveu a uma qualquer inovação formal (já se inventou tudo, ou quase tudo) mas apenas, e como deve ser, à qualidade dos textos. A irreverência está sobretudo na capacidade de juntar abordagens sérias a livros sérios com brincadeiras muito irónicas e inteligentes – veja-se a divertidíssima lista de «10 under 10», um inquérito imaginário a dez escritores com menos de dez anos, infantis à sua maneira, mas revelando a bagagem teórica e a linguagem de um académico de Harvard.
Maduka e Mullen não estão sós. Antes deles, já havia um excelente projecto mais ou menos com os mesmos propósitos, a n+1, e entretanto começaram a aparecer outros: The New Inquiry; Triple Canopy. O que os une é um certo sentido de comunidade. As revistas são colectivos de criadores e críticos com interesses próximos, mas nada impede cruzamentos entre elas. Sobretudo, o que estas iniciativas provam é que há vida para além dos circuitos habituais, muitos deles saturados e pouco abertos a novas formas de discurso sobre a literatura. De certa maneira, na sua leveza e agilidade, estas revistas nova-iorquinas fazem-me lembrar as microeditoras de poesia portuguesas, mais activas e interessantes, pelo menos nos últimos anos, do que as editoras clássicas. O que eu gostava era de ver surgir por cá uma revista assim. Bastava uma, que a nossa massa crítica é o que se sabe. Em 1915, há quase um século, também apareceu do nada uma revista que agitou, e de que maneira, as águas. Chamava-se Orpheu. Eu não peço tanto, claro, mas as águas precisam mesmo de ser agitadas.

[Texto publicado no n.º 121 da revista Ler]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges