Escrever no século XXI

Olhemos à nossa volta. Os aparelhos que permitem ler e-books multiplicam-se, sofisticam-se, democratizam-se. Cada vez mais pessoas têm uma biblioteca ambulante no Kindle, no iPad, no iPhone. A tecnologia progride todos os dias. As novidades sucedem-se. Há umas semanas, por exemplo, foi lançado o Google eBooks, que promete revolucionar os nossos hábitos de leitura. Em vez de ficarem alojados num determinado hardware, os ficheiros com livros passarão a existir virtualmente numa «nuvem» online, à qual acederemos em qualquer lado e em qualquer suporte físico, através de uma simples ligação à internet. Ou seja, um romance pode ser começado no computador lá de casa, ao pequeno-almoço; prosseguindo depois a leitura num tablet, durante a viagem de comboio até ao emprego; ou na fila do Multibanco, quando se aproveita os minutos de espera para despachar mais um capítulo no smartphone. Neste sistema, a desmaterialização do livro é levada ao limite: o livro passa a existir só na tal «nuvem» abstracta, algures na rede de informação, como se fosse uma entidade supraterrena, um arquétipo que desce a pedido aos nossos vários ecrãs (depois de pago com o cartão de crédito, claro).
Por enquanto, esta potencial mudança dos hábitos de leitura ainda não é acompanhada por quem produz os livros, pelo menos no nosso país. Para as editoras tradicionais, o mundo digital continua a representar uma ameaça, mais do que um desafio ou uma oportunidade. Mesmo os grandes grupos, que teriam meios para investir a sério nas novas tecnologias, avançam a medo, timidamente, receando apostar em modelos de negócio que ainda não passaram o teste do tempo. É sintomático que os debates sobre o futuro do livro se resumam quase sempre ao fantasma de um medo apocalíptico: será que o livro físico, em papel, com textura e cheiro a pó, vai desaparecer de vez? Provavelmente não. Provavelmente continuará a existir, porque há uma experiência de leitura associada aos livros-livros que é inimitável e para muita gente, sobretudo as gerações que aprenderam a ler com eles, insubstituível. Contudo, mesmo quem prefere o papel tenderá a ler cada vez mais em suportes digitais. Já para não falar das crianças que nascem agora, na era do multitasking, e que previsivelmente pensarão dos livros-livros o mesmo que nós pensamos das calculadoras: «Mas afinal só fazem isto?»
Pela minha parte, o que me preocupa não é o meio (se vamos ler na parede da sala, no tecto da cozinha ou no tablier do carro); é o conteúdo. Que literatura o século XXI tem para nos oferecer e de que forma será capaz de se sintonizar com os tempos que vivemos. Os primeiros sinais, devo dizer, são preocupantes. Ao fim de uma década, contam-se pelos dedos os romances que são especificamente deste século, com narrativas que reflictam e incorporem o zeitgeist, dos novos paradigmas sociais à interconectividade global. A maior parte das ficções que se escrevem e publicam hoje podiam ter sido criadas em qualquer das décadas do século anterior – e muitas são meras variações, serôdias e gastas, dos romances oitocentistas. Enquanto outras artes souberam integrar a pulsação da criatividade contemporânea (veja-se os graffiti expostos em museus ou o uso dos samples na música, tanto popular como erudita), a literatura parece ter dificuldade em reinventar-se, em descobrir modos narrativos que estejam à altura da complexidade do mundo actual. É deprimente entrar numa livraria e perceber que 90% dos romances disponíveis obedecem a uma lógica linear, com os mesmos esquemas, mil vezes repetidos. Em 2011, exige-se que certos géneros literários (sobretudo o romance) façam o necessário upgrade. David Shields, no seu brilhante ensaio-manifesto que mistura ideias próprias e alheias em 618 fragmentos (Reality Hunger, Hamish Hamilton), mostra como é vasto o campo das possibilidades ainda por explorar. Na verdade, espero que o romance do século XXI não seja escrito só no século XXII. Porque gostava mesmo de o ler – seja em papel, a partir da «nuvem» ou noutro sistema qualquer que ainda esteja por inventar.

[Texto publicado no n.º 98 da revista Ler]



Comentários

2 Responses to “Escrever no século XXI”

  1. Ricardo Assis on Março 28th, 2011 23:02

    Tenho alguma dificuldade em imaginar essa nova literatura. Pelo menos em relação a determinadas coisas que já li. Li até sobre a possibilidade dos novos meios de integrar som e imagens o que, sinceramente, não me agradou. Daqui pouco literatura deixa de os ser. Sons e imagens?! Não obrigado.
    Claro que o meio também não me interessa quando leito, é tudo uma questão de hábito apenas. O fato é que todas as pessoas que eu já ouvi a afirmarem as suas desconfianças e desagrados em relação ebooks não experimentaram sequer. O meio de facto, é o que menos importância tem.
    Na relação com os novos tempos, Rayuela (não gosto do título O Jogo do Mundo apesar de o perceber, o jogo da macaca, realmente…) é então um livro mais actual do que nunca na estrutura que apresenta, ou até um livro como Manuscritos Encontrados em Saragoça, com aquelas redes de história contadas alternadamente e que se interrompem umas às outras. Hipertextualidade com redes de texto e, no caso do Rayuela, alguma interactividade, o escritor constrói mesmo o seu percurso de leitura, tornando-se numa pequena parte autor.
    Mas eu fico a pensar: agora é esse o caminho? Ou também o que faz o Gonçalo M. Tavares em livros como Jerusálem ou, um livro mais recente, o Cuenca em O Único Final Feliz… com a ausência de linearidade, cronologia.
    Hoje em dia, por exemplo, temos o Gonçalo M. Tavares que inovou bastante, tem uma escrita original e agora outros escritores querem escrever como ele. Algumas dessas inspirações não resultam tão bem, parece-me, sem contar que é cansativo. Acredito que possa estar totalmente enganado, mas fico a pensar que poderá ser limitativo e muito repetitivo se todos agora todos adoptassem uma escrita cerebral, concisa e repleta de aforismos. Achei, por exemplo, Diálogos Para o Fim do Mundo muito Tavariano (isto não soa bem), mas não achei tão bom assim. No início fiquei admirado, muito bem escrito mesmo, passagens admiráveis, mas sucedem-se tantos aforismos que coisa nenhuma dizem que me soa mal, a banalidade dita como se fosse uma descoberta, parece coisa de livro infantil (não como nos livros de O Bairro), sem o efeito que por exemplo se vê no livro do Gonçalo M. Tavares. Talvez eu é que não tenha sabido apreciar, alguns desses aforismos estão mesmo na capa do livro… “as despedidas são como as despedidas sempre são”… Eu acho que tentar ir na onda da inovação do Gonçalo M. Tavares pode não ser o ideal para todos…
    Mas já escrevi a mais e divaguei… muito pouco actual diga-se, dei toques a mais.

  2. C. Carvalho on Março 29th, 2011 9:35

    Talvez isso suceda porque a forma mais eficaz de contar uma história é a mesma, desde Aristóteles… A linearidade (ou não) da estrutura nada tem a ver, na minha opinião, com a incorporação do espírito do tempo na obra (e isso sim, contam-se pelos dedos da mão aqueles que o conseguem).
    Ainda assim, quais são, na sua opinião, essa meia-dúzia de livros que incorporam o zeigeist? Gostava mesmo muito de os ler.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges